Oscar Bessi

Semelhantes, similares e quase iguais

Encontrei um caqui entre tomates. Foi na feira livre da Xavier de Almeida, no Alto do Ipiranga, em São Paulo. Havia encerrado uma turnê em terras paulistas com meu livro "Um caminho no meio das pedras", novela juvenil que aborda o tema do crack e outros debates.  Eu visitava o Bruno. Amigo, editor, parceiro de letras e maluquices boas. Tinha conhecido sua namorada, sua sogra, seu cão, seus livros. E a manhã ensolarada daquele domingo de despedida era de tal forma festiva, lá na rua, que desci dezesseis andares apenas para sentir de perto aquela euforia toda.

Ele já tinha me apresentado boa parte daquela cidade maluca, estressada e múltipla, milionária e miserável. Tão estupenda e tão comum em suas manias de grandeza até numa simples feira livre. Fui lá. Quilômetros de barracas, tendas, contêineres. Gosto de andar invisível entre algum povo que porventura eu não conheça. Pescando suas reações sinceras, suas euforias sem máscaras, suas inquietações. Percorri bancas entre gritos, gargalhadas e alguns protestos sobre os preços. Principalmente do tomate. Se em qualquer lugar do Brasil o tomate anda caro, em São Paulo o é mais ainda.

Pois numa pilha de tomates lá estava ele, o caqui. Disfarçado. Quieto. E eu me aproximei sem qualquer intenção de descobri-lo. Então aquele tomate um pouco opaco me chamou a atenção. Era parecido com os outros, mas não era de verdade. Era um caqui. Reconheci. Seus semelhantes eram vendidos a um preço três vezes menor por ali. Semelhante ao tomate? Não. Outra estirpe. Similar? Muito menos. Quase igual? Assim, de vista, talvez. A um olhar menos experiente, não ao meu, guri ítalo-caboclo criado no interior do Rio Grande do Sul. Então, incomodado, encarei o caqui como quem fosse desmascará-lo em nome do Código do Consumidor, da inspetoria de saúde, do movimento passe livre ou o escambau.

Mas minha mão ficou suspensa no ar. Numa bolha de silêncio entre tantos gritos.

Haverá sempre, nesta vida, aquele que quer ser quem jamais será. Haverá o que tenta parecer mais do que é - e por critérios muito mais dos outros do que realmente seus, sinceramente seus, ou do mundo real. Máscaras que se obrigará a vestir na desesperada tentativa de sucesso. E haverá até o que não vê diferença entre os desiguais, seja por incapacidade de compreender, ou por não querer ver, até por qualquer birra.

Talvez o caqui, ali, só quis valer um pouco mais. Talvez tenha sido jogado naquele cesto sem culpa de nada, vítima da ganância alheia, usado como prostitutas por um gigolô, viciados por um traficante, povos por seus gestores. Talvez fosse cúmplice de um golpe baixo, um engodo mínimo e invisível, só mais um neste país de enganos gigantes pela própria natureza, e de autores deitados eternamente em berço esplêndido, não na cadeia. Ou, ainda, talvez ele nem seja um caqui, mas uma cereja siliconada. Um abacate transformista. Ou um melão encabulado. E tudo, tudo o que eu vi, ou viu quem ali passou naquela manhã, fosse nada além de uma ilusão de ótica, de uma conclusão precipitada, de uma bobagem da nossa cabeça. Quem saberá a verdadeira verdade? Quem julgará o caqui que andava ali, perdido e fingindo ter mais valor, entre tomates?

Comprei-o.

Mas pelo preço de um caqui, é óbvio.