s três elementos, juntos, podem dar um bom filme. Ou compor o tempero para um romance policial. A realidade, porém, traz outros tons. Tristes. Desejo e dor, loucura, posse. O que chamamos de crimes passionais, na verdade, são a face cruel dos crimes de gênero que temos dificuldade de enfrentar.Uma questão cultural. Há pouco, nosso código penal perdoava a "legítima defesa da honra", implicitamente masculina. Ou deixava margens às teses de defesa do que foi feito "sob violenta emoção". Como se esta violência, alicerçada nalgum sentimento doentio, tivesse poderes de razão. E mesmo que a Constituição de 1988 tenha deixado claro que todos são iguais perante a lei, a cultura não se modifica assim, com um simples redigir e editar de textos. Basta ver o anedotário público. As letras de músicas que até hoje permeiam programações das rádios populares, ou mesmo dos comerciais de bebida alcoólica e outros tantos exemplos. A mulher coisa, objeto de posse, segue existindo sem censura ou pudor.
Nada exclusivamente brasileiro. A literatura mostra, inclusive nalguns clássicos, a simpatia social européia para o homem que, traído, resolve com sangue as dívidas morais daquela a quem "dedicou seu amor". A paixão que justifica. Justifica? A paixão precisa ser, de fato, ausência de racionalidade, que por si ameniza o ato criminoso?
A maioria dos casos registrados no nosso país tem origem numa "rejeição" sentida pelo criminoso em relação à vítima. No Brasil, sétimo país em crimes de gênero no mundo, mais de dez mulheres são mortas por dia por companheiros ou ex-companheiros. Uma total falta de humanidade.
Amor não mata. E se mata, ou agride, não tem qualquer relação com amor. É apenas poder. Posse. Machismo cultural e nada além.
Nesta semana o crime de Candelária, onde um casal foi assassinado a tiros, teve, como a vala comum destes casos, os requintes de uma crueldade premeditada. Passional, é o que a investigação acredita. Mais um para as estatísticas esquecidas amanhã. Os boatos e comentários, pitorescos, se espalham pela rede. Há quem defenda o (por enquanto hipotético) criminoso e sua honra lavada.
O desejo é do ser humano. Como o amor. E o ódio. Agora, essa cultura de redução da mulher a um mero objeto de posse já poderia ter sido varrida de nossas mentes.
