Sobre as crianças do Brasil

Sobre as crianças do Brasil

O país mergulha o seu amanhã no medo, na fuga e nesse consumismo sufocante e monstruoso, que inunda um oceano de almas na frustração e valores equivocados.

Oscar Bessi

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No início do mês passado, um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgar o habeas corpus de um traficante de drogas, citou que já passa de 86% o número de municípios brasileiros afetados pela invasão do crack, que leva cada vez mais ao interior do país furtos, roubos, homicídios e uma série de violências correlacionadas, até contra o próprio usuário. Os dados são do Observatório do Crack da Confederação Nacional de Municípios (CNM). O “crack produz efeito social devastador”, disse o magistrado, ao citar a reiteração de práticas delituosas para sustentar o vício. É bom lembrar que o tráfico de drogas fatura cerca de R$ 10 milhões por mês só na “cracolândia” paulistana, onde quase ninguém tem renda afora seus pequenos crimes. Imaginem quantos crimes acontecem só naquela região. Ampliem para o país inteiro. E tentem medir a real dimensão do problema e o porquê de nunca parar. Matar a conta-gotas dá muito lucro.

O número de crianças usuárias de crack cresce de forma assustadora. Aos traficantes, um bom mercado, pois a dependência é muito mais rápida. O vício vira a única concepção de prazer, satisfação e felicidade. Valores humanos e a autoestima vão para o ralo. Uma escola da violência. As redes do crime, de forma macabra, fazem o país como sociedade organizada fracassar. Os criminosos investem no futuro. Enquanto isto, se perde tempo e se gasta energia inútil entre discursos fanáticos sobre ranços ideológicos que, no fundo e na prática, se cruzam na intersecção da inércia e do egocentrismo típico de pequenos grupos. O país mergulha o seu amanhã no medo, na fuga e nesse consumismo sufocante e monstruoso, que inunda um oceano de almas na frustração e valores equivocados.

Lamentável é que se contraponha, à tão triste realidade, concepções funestas e soluções rasas, tipo incentivar o trabalho infantil como meio de evitar crianças no crime e no vício. Pois bem, as próprias redes de tráfico de drogas já dão bastante emprego ilegal para os pequenos. Assim como as redes de prostituição e pornografia infantil, entre outras. Não é escravizar que resolve. É permitir. Mas permitir a Educação, esta de “E” maiúsculo que pode ser protagonista, sim, desde que valorizada, não só nas escolas como nos lares, nas ruas, em qualquer lugar. Permitir a alegria e o crescimento saudável, incentivar o respeito e o amor ao próximo, não à intolerância e ao ódio como comportamento aceitável. É dizer sim à criança para que seja, de fato, criança. Nada além. Com futuro. Magia. Encanto. E que esta alegria de ser criança dance, inquieta e colorida, entre contos de fadas e a realidade da vida, sem precisar do veneno ilusório dessa pedra mortal. Permitir sonhos, possibilidades e novos dias. Eis o melhor presente para as nossas crianças.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895