Oscar Bessi

Sobre proteger mulheres e crianças

Coluna de edição dominical impressa - 30/8/15

 

Sempre recebo e-mails, a cada coluna, da minha meia dúzia de leitores. Em geral dos insistentes, dos eternos motivados pelo sonho de um mundo mais justo, ou mais gentil, educado e pacífico. A imensa maioria, Professores (sim, com letra maiúscula). Uns sonhadores. E vários desabafos dos que sofrem na carne a violência sutil, brutal, venerada ou manipulada desses dias desumanos. Desses tempos acelerados e mercantilistas onde a desatenção soa normal, e pisar sobre o outro é gesto de vitória. Porém, um e-mail me chocou. Pela verdade e dor que trazia consigo. É óbvio que não revelarei nomes. Nem das vítimas, nem dos criminosos, seja o autor ou os que se omitem.


Ela é uma mulher que enfrentou por vias legais a violência do marido, sujeito que ela, com seu trabalho, estudo e economias, ajudou a ser alguém. Há uma criança entre ambos. Ao procurar ajuda, iniciou-se uma série de descasos a sua dor. O contrário do que se prega na mídia sobre proteger mulheres e crianças. Do que se conquistou neste país com leis de proteção. Certas vezes, os responsáveis pela aplicação destas leis são os primeiros a torná-las um nada. A semearem desespero, impotência e impunidade. Esta criança chora de medo do pai. Por que será? A mãe trabalha e cuida sozinha dos problemas de saúde deste pequeno, ainda recebe ameaças do ex-marido e pai (pai?). Ela grava, imprime. Mas percebeu que suas provas sequer consideradas. Caem no abismo sem tempo que abafa milhares de situações semelhantes.


Bom, conheço profissionais exemplares de todos estes poderes públicos que trabalham para nós, povão. Destes, jamais ouvi que há deuses, dignos só de reverências e privilégios. Outros dizem? Olha, meu pai me ensinou a não andar mal acompanhado. Todos sabem que os recursos públicos nascem do suor do operário, do professor, do trabalhador rural, de nós, homens e mulheres de todas as classes e etnias deste país. Somos quem banca a pesada máquina pública e nos privamos de muito para isto. Esperamos que, se for preciso, pelo menos possamos contar com ela. Neste caso, do e-mail, ocorre o exato inverso: descaso, desleixo, desconsideração. Não acuso, aqui, ninguém. De lugar nenhum. E minha verdade vem da clara percepção sobre a dor desta mulher. Então só peço, encarecidamente, aos que por competência de função pública tiverem em mãos o poder de avaliar e decidir sobre violências contra mulheres e crianças, que olhem com muito carinho para estes casos. Com humanidade. Que vejam pessoas, vidas, dores reais. Não apenas letras e números. Deixar para amanhã pode ser fatal. E eu sei que, no fundo, ninguém quer mais episódios infelizes, como a surdez nos levou o menino Bernardo.