Oscar Bessi

Soldado Lourenço, nosso eterno parceiro

É em nome do nosso querido amigo e ex-aluno, Soldado Lourenço, que nos deixou tragicamente no acidente com sua viatura em Caxias do Sul, que preciso homenagear o caráter desses homens e mulheres, novos e veteranos, os que se foram nestes dias, os que se foram antes, e os que seguem aqui. E que fazem jus à farda e ao compromisso que assumem perante a sociedade gaúcha.

É uma coincidência que eu preferia que não acontecesse, esta coluna chegar aos leitores do nosso jornal justo hoje, Dia de Finados. Um momento em que a gente tenta transformar saudade em esperança, ausência em significado, e então refletimos sobre o destino que quase não aceitamos, a sabedoria divina antes as coisas que mal entendemos, o inevitável que faz parte das nossas existências. Nada é em vão. Não pode ser. Confesso que, há dias, eu planejo algum texto sobre a importância das notícias policiais nestes 129 anos do Correio do Povo, recém celebrados em outubro. Não deu. Não saiu. Os fatos nos atropelaram, implacáveis. Não têm sido dias fáceis para a Brigada Militar. A dor de perdermos tantos jovens colegas de farda em tão pouco tempo deixa cada passo nosso mais pesado nos reinícios necessários e urgentes. Mas, ainda que a gente nunca pare, que sigamos diuturnamente avante na defesa da sociedade gaúcha, que siga ignorando o risco da própria vida na defesa de todos, haverá sempre, nalgum cantinho da alma, uma lágrima contida, digerida, corajosa, porém nunca esquecida.

Alguns leitores talvez saibam, mas este colaborador, hoje ainda na ativa da Brigada Militar (e só por mais dois ou três meses, pois o tempo máximo permitido me mandará para casa), conduz a Escola da Brigada Militar em Montenegro. Que integrantes, alunos e ex-alunos chamam carinhosamente de “A Lendária”. A primeira, da BM, criada junto com o Departamento de Ensino, há meio século. Às margens do Rio Caí, a sucessão de cheias nos castigou. Mas graças a um plano criterioso de evacuação, em respeito ao patrimônio público pago pelo contribuinte, e aos braços incansáveis dos policiais militares em uma madrugada insone, salvamos praticamente tudo que tínhamos. Às águas rebeldes, restou que que apenas inundar. E é no momento de limpeza de nossa Escola, de reerguimento, que surge o Soldado Lourenço. Pai de um bebê nascido há pouco. Ex-aluno do curso de soldados de 2021, ele veio de longe, voluntário, de folga, com outros colegas ajudar na limpeza da Escola. Por amor ao lugar onde aprendeu a ser policial. Onde descobriu que ali estava a sua vida e vocação. Onde conheceu colegas e veteranos que o inspiraram. E que fizeram que ele traçasse um objetivo: “um dia estarei aqui, na coordenação de um curso, ajudando a formar novos policiais militares”.

É em nome do nosso querido amigo e ex-aluno, Soldado Lourenço, que nos deixou tragicamente no acidente com sua viatura em Caxias do Sul, que preciso homenagear o caráter desses homens e mulheres, novos e veteranos, os que se foram nestes dias, os que se foram antes, e os que seguem aqui. E que fazem jus à farda e ao compromisso que assumem perante a sociedade gaúcha. Aos sonhos justos que motivam seus passos, aos nobres objetivos que traçam na vida, permeado de renúncia, garra e sacrifícios. Lourenço, nosso irmão, parceiro de recomeço e de ideal, conquistou seu primeiro sonho: ser aprovado com louvor no Curso de Especialização em Operações de Choque. Classificado no 4º Batalhão de Choque, de Caxias, estava feliz. Realizado. Era o início de uma nova fase. Seu próximo objetivo era, futuramente, estar conosco na Coordenação de um curso. Olha, Lourenço. Sei que tu estás atento aí, nesse lugar que Deus reserva, ao seu lado, para os grandes guerreiros do bem. Então saiba que a sala de Coordenação de Curso da EsFES Montenegro terá, a partir de agora, o teu nome. Tua imagem. E nossa continência. É o mínimo. Teu sonho será realizado: estarás para sempre conosco, inspirando a formação dos futuros policiais militares do Rio Grande do Sul.