Oscar Bessi

Táxis e terrores

CAPA-Em-linha-retaNão há vida sem táxi. É o transporte mais rápido, confortável, eficiente e prático que existe. Caro? Depende do lugar e do trajeto a ser percorrido. Tenho diversos amigos e leitores taxistas. Vez em quando recebo e-mails de alguns deles, falando sobre insegurança, vida difícil nos tempos de automóveis particulares lotando ruas além da capacidade viária, de desinteligências banais, de impaciências. E, além disso, os tais ubers. Ou taxistas informais, ilegais, como queiram. Uma concorrência injusta - que alguém procura, na maioria dos casos, para pagar menos pela corrida - com quem tem que pagar taxas e outros quetais para manter o seu trabalho. A sua sobrevivência.

Confesso que tenho sorte com os taxistas que encontro. Não tive, neste quase meio século de vida, um caso de que possa me queixar. Em Porto Alegre, no interior do estado ou em São Paulo e Minas. Já minha mãe viveu alguns dissabores. Na média final, poucos desvios de comportamento, insuficientes para se atribuir a uma categoria inteira. Mas, também, não apanho táxi todo dia. Minhas experiências jamais seriam parâmetro aos que adoram números. Como prefiro pessoas às estatísticas, valido o que vivi.


O que aconteceu nos últimos dias, na capital gaúcha, gerou uma série de comentários raivosos contra os taxistas porto-alegrenses. Não vi muita racionalidade nisto. Não consigo ver lógica na generalização. Foram fatos graves? Com certeza. E que a polícia descubra seus autores. Preocupante? Sim, principalmente para os bons profissionais da área. Agora, não dá para pensar que todo taxista pode assaltar seu passageiro ao saber que ele vem do banco. Ou que toda moça precisará se jogar do carro feito a corajosa estudante que, ao estranhar o comportamento do taxista, não esperou a crueldade possível na dúvida. Lembrei, aliás, ao ler sobre este caso, do taxista Damián. Personagem do incrível "Em linha reta" (foto), de Tailor Diniz. Um livro cheio de suspense que faz a gente ficar com a respiração suspensa, e sem vontade de largá-lo, até a última página, onde o final surpreende. No livro, mas noutro cenário gaúcho, algo bem parecido acontece. Não vou contar para que leiam. Vale a pena.


Taxistas, em geral, são unidos. E como se unem para pedir segurança ou reajustes de tarifas, agora precisam se unir para afastar esses maus profissionais do seu meio. Dois casos horríveis com poucos dias de intervalo é uma dose grande demais para o imaginário popular. Já basta o cotidiano de outros medos. A marca coletiva necessária a este serviço precisa trazer, de forma automática, lembranças de gentileza, educação, honestidade e interesse pelo outro. Como qualquer atendimento público que pretenda excelência. É o que valoriza qualquer produto ou serviço e empresta credibilidade. Se não houver um movimento incisivo da própria categoria, neste sentido, os dias bicudos ficarão ainda mais afiados. Tirem esses maus colegas das ruas, meus amigos taxistas. Inclusive os que, porventuram, seduziram-se pelo lucro fácil e inglório de fazer certos transportes bem distantes do que se sabe como passageiros. Preservem os bons, para que os maus não tomem conta. Ou os ubers virão com tudo e cheios de razão.