Os romances “1937 – Juliette em perigo!”, de Rafael Guimaraens, e “Perigo na esquina”, de Tailor Diniz, parecem, à primeira vista, separados por quase um século de história, estética e ambientação. No entanto, quando observados com atenção, ambos revelam uma surpreendente intersecção ao explorar os subterrâneos da sociedade, lugares onde a ordem oficial fracassa e onde sobrevivem personagens que transitam entre a marginalidade e a resistência humana.
Sou um apaixonado por livros de literatura. Porém, confesso que ando meio seletivo em minhas escolhas. O mercado literário, já difícil por natureza em um país criado sob séculos de uma cultura excludente que multiplica os não-leitores, em tempos de IA e tecnologia anda ainda mais difícil. Para completar o quadro, há uma avalanche de obras com conteúdo no mínimo questionável. Agora, há um elenco de escritores e escritoras que não abro mão de ler. Não são muitos. Mas, entre eles, estão os gauchíssimos Tailor Diniz e Rafael Guimaraens.
Quase um século de distância
Há livros que dialogam entre si mesmo quando separados por décadas de história e por autores distintos. É o caso de 1937 – Juliette em perigo!, de Rafael Guimaraens (Libretos), e Perigo na esquina, de Tailor Diniz (L&PM). Embora ambientados em épocas diferentes e conduzidos por personagens distintos, os dois romances parecem compartilhar uma mesma inquietação literária: explorar o submundo urbano e revelar aquilo que as cidades insistem em esconder sob a superfície da normalidade.
1937 – Juliette em perigo!
No romance de Guimaraens, a trama se passa em 1937, em uma Buenos Aires marcada por instabilidade política, cabarés esfumaçados e redes clandestinas que prosperam à sombra da legalidade. A narrativa acompanha o repórter Paulo Koetz (do Correio do Povo!) em sua tentativa de resgatar a cantora Juliette Foillet de uma engrenagem de exploração e violência que envolve cafetões, policiais corruptos e contrabandistas. A cidade surge como um território de contrastes: enquanto as avenidas elegantes exibem a aparência de ordem, a noite revela um universo paralelo onde sobrevivem personagens esquecidos pela moral oficial. O livro é uma deliciosa continuação do instigante “1935”, publicado por Guimaraens em 2024.
Perigo na esquina
Já em Perigo na esquina, Tailor Diniz transporta o leitor para a Porto Alegre contemporânea, onde o detetive A. Boccanera investiga o desaparecimento do filho de um líder religioso, envolvido em disputa política, que rompe com a família e passa a viver nas margens da cidade. A busca conduz o investigador a um ambiente povoado por travestis, prostitutas, religiosos ambíguos e figuras ligadas ao crime urbano. Assim como no romance de Guimaraens, a investigação acaba desvendando mais do que um simples mistério: revela uma rede de relações em que poder, hipocrisia e violência se entrelaçam.
Uma intersecção entre duas histórias distantes
É justamente nesse ponto que os dois livros se encontram. Em ambos, o crime funciona menos como um enigma policial e mais como uma porta de entrada para os subterrâneos sociais. As narrativas desmontam a ideia confortável de que o mal habita apenas as margens da sociedade. Pelo contrário: tanto na Buenos Aires dos anos 1930 quanto na Porto Alegre atual, o submundo se conecta diretamente com instituições que deveriam representar ordem e moralidade.
Também os protagonistas compartilham um parentesco literário evidente. O jornalista Paulo Koetz e o detetive Boccanera pertencem à linhagem clássica dos observadores desencantados do romance noir. Eles caminham por territórios ambíguos, conversam com personagens moralmente ambivalentes e testemunham realidades que prefeririam não ver. Não são heróis impecáveis, mas intermediários entre mundos — figuras que atravessam as fronteiras invisíveis entre o que a sociedade admite e aquilo que prefere ignorar.
A força narrativa na voz dos vulneráveis
Outro ponto de convergência está na presença de personagens socialmente vulneráveis. Nos dois romances aparecem mulheres exploradas, trabalhadores da noite e identidades marginalizadas que encontram nas zonas obscuras da cidade uma forma precária de sobrevivência. Longe de serem apenas vítimas, esses personagens compõem uma espécie de comunidade invisível, sustentada por solidariedades improvisadas e por códigos próprios de convivência.
Ao colocar essas duas obras, lado a lado, surge uma constatação inquietante: as cidades mudam, os regimes políticos se transformam e as décadas passam, mas certos mecanismos sociais parecem persistir. O submundo retratado por Guimaraens na década de 1930 encontra ecos perturbadores na realidade contemporânea narrada por Tailor Diniz. Mudam os cenários, as linguagens e os contextos históricos, mas permanecem a exploração, a hipocrisia e a luta cotidiana pela sobrevivência.
Talvez seja essa a força dos dois romances. Mais do que histórias de crime, eles são retratos de cidades vistas a partir de suas sombras. E, ao fazer isso, lembram ao leitor que o verdadeiro perigo raramente está apenas na esquina escura — muitas vezes ele nasce exatamente nos lugares que afirmam representar a ordem e a moralidade.
O bate-papo
Por conta do poderoso (como diria Tailor) Festival Rastros do verão, Tailor e Guimaraens estarão nesta terça-feira, às 18h30, na Livraria Clareira (Rua Henrique Dias, 111, Bom Fim). Este colunista terá a difícil tarefa de ser o mediador da conversa entre esses dois gigantes.
Quem são os autores
Rafael Guimaraens: Autor de mais de 20 livros, nasceu em Porto Alegre (25/05/1956). Carlos Rafael Guimaraens Filho é jornalista profissional desde 1976. Atuou como repórter, editor e secretário de redação da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (Coojornal). Foi editor de Política do jornal Diário do Sul. Exerceu diversas funções nas assessorias de imprensa da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, Governo do Estado do RS e Assembleia Legislativa do RS.
Tailor Diniz: Escritor, roteirista e pintor, teve seu livro “A superfície da sombra” (Grua, 2012), adaptado para o cinema e traduzido na Bulgária. Prêmio Jacarandá de Melhor Livro do Ano, em 2023, promovido pelo jornal Correio do Povo. “Perigo na esquina” é seu vigésimo quarto livro.
