Oscar Bessi

Ter filhos

Um jovem amigo me confessou que não sabia que ter filho exigia tamanha operação de logística para qualquer saída de casa. Mas é assim. Eles não sabem, quando crescem. E ainda reclamam: como pais, não fomos tão bons quanto pensamos. Eles nem imaginam o que passamos por eles. O que renunciamos e o que tivemos que fazer. Sim, qualquer saída envolve essa complexa logística. Aliás, não só para sair. Para ficar em casa, para trabalhar, para fazer compras, para dormir, para tudo. E tudo para. Natural. Somos responsáveis por eles. E, por eles, precisamos planejar todos os próximos passos. Pensar nos próximos gestos. Cogitar todas as possibilidades. Não escolher mais o melhor caminho e hora para si, para mas eles, os filhos, sempre e fundamentalmente. Mas não como se fosse um fardo. Isto deve acontecer ao natural. E, se não for assim, que não se arrisque a maternidade ou paternidade. Porque estes conceitos perdem todo o seu sentido se não vierem acompanhados de carinho e proteção. De renúncia.

Claro que, no início, e principalmente aos que se inauguram na vida de pais, muitos erros são cometidos por falta de experiência. Normal. Mas a vida ensina a não esperar o uso da última fralda para comprar as próximas, a não levar menos de três mudas de roupas na sacola do bebê que pode extrapolar o limite das fraldas, pode vomitar, pode se sujar por qualquer incidente. A não falar ou fazer o que não se deseja que o filho repita, hoje ou amanhã. Eles estão conhecendo o mundo que nós já conhecemos, então a missão de lhe preparar o caminho é nossa. A gente aprende. Gurizada que deseja ter filhos cedo tem que ter na mente que os finais de semana não serão mais apenas para baladas e namoros. Não dá para jogar os seus pequenos no colo dos outros o tempo todo, uma hora porque tem o trabalho, depois é o estudo, a festa, etc. E nada de assumir suas responsabilidades. Há que se pensar antes.

E francamente: hoje há todo o esclarecimento do mundo por aí, bem fácil, nas tecnologias, nos lugares, nas ruas, nas nuvens virtuais. O conhecimento não é mais algo de difícil acesso para ninguém. Então a ingenuidade deixou de ser uma boa desculpa. Quem engravida, vamos combinar, afora os casos de abuso sexual, engravida porque quer. Porque assumiu a possibilidade. Então que tenha a decência de se tornar responsável de fato pela vida que gera. Assumir-se pai e mãe. Que na hora do sexo, do desejo, tudo é festa e o descuido dá as cartas. Depois quer fugir? Não. Dizer que não sabia é papo furado. E se temos hoje uma sociedade repleta de gente afinada com o ódio, isto nasce, antes de tudo, na falta de compromisso de muitos pais e mães com o amor de verdade aos seus filhos. O amor que ampara e se dedica. O amor que educa.