Oscar Bessi

Terroristas ou não?

Quem transforma essa realidade em disputa de torcida ajuda, sem perceber, a esconder o verdadeiro adversário

Há quem diga que o PCC e o Comando Vermelho são terroristas. Há quem responda que são apenas facções criminosas. A discussão jurídica é importante, mas, para quem mora onde o Estado perdeu espaço, o rótulo muda pouco. Quem cobra pedágio, expulsa moradores, impõe toque de recolher, recruta adolescentes e desafia o poder público já exerce, na prática, um domínio que nenhum cidadão deveria aceitar como normal. O problema talvez não seja o nome, mas o tamanho do fracasso que permitiu que chegássemos até aqui. Porque não há como definir diferente. Fracasso total e histórico. Nada mudou, nem com direita ou esquerda no poder. Brasileiro comum vive com medo e é isto.

E não adianta terceirizar nossa responsabilidade. Os Estados Unidos até têm alguma experiência no combate ao crime organizado, mas estão longe de ser um modelo perfeito. Basta lembrar a longa história da máfia ítalo-americana, dos cartéis que seguem abastecendo o mercado de drogas, das gangues violentas que dominam bairros inteiros e as crises da epidemia de opioides. Sem falar nas denúncias, processos e controvérsias envolvendo o presidente atual, violações de direitos civis e abuso de poder. Ninguém está em posição de distribuir certificados de excelência nessa área.

Cada um precisa cuidar do seu quintal e a sujeira é tenebrosa em ambos. No mais, é desculpa furada para defender taxas a produtores estrangeiros e eliminar concorrências no mercado.

A velha lei do mais forte baseada na truculência e nada além. A Venezuela que o diga – os interessados em saquear seu petróleo estão nem aí para o que criminosos de cartéis e governo seguem fazendo contra um povo pobre e oprimido.

Enquanto isso, aqui dentro, o perigo cresce. As facções já demonstraram capacidade de infiltrar interesses em diferentes estruturas do Estado, alcançando agentes públicos, administrações, contratos, eleições e setores da política, patrocinando candidatos sem distinção automática entre direita e esquerda. O crime organizado não tem ideologia: tem é caixa, estratégia e ambição. Compra quem estiver à venda e ameaça quem não estiver. Quer verba e lavagem de dinheiro.

Quem transforma essa realidade em disputa de torcida ajuda, sem perceber, a esconder o verdadeiro adversário.

Talvez a maior arma das facções seja justamente a nossa dificuldade de enxergar além dos fanatismos. Quando cada escândalo vira apenas munição contra o lado oposto, o crime agradece e continua ocupando espaço. Recuperar a soberania nacional não depende de discursos inflamados nem de salvadores da pátria. Muito menos de definições abstratas usadas para inflamar desavisados e justificar sabe lá o quê. Depende é de instituições fortes, investigação séria, justiça eficiente e, principalmente, de uma população capaz de cobrar honestidade de todos, sem exceções. Um país melhor não virá de interferências externas. Terá de ser construído, com muito trabalho, por brasileiros que finalmente decidam enfrentar o crime antes de enfrentar uns aos outros.