Oscar Bessi

Todos nós somos alvos

Acredito na educação. A blindagem através do mais eficiente mecanismo protetor que um ser humano jamais conseguiu superar: o conhecimento. Mas conhecimento com pesquisa, com raciocínio crítico, com o corpo mandando para fora de si tudo o que não presta.

Esta semana postei, no meu blog do portal Correio do Povo (exclusivo para assinantes), um texto sobre as causas que levam a essas disputas pelo tráfico de drogas nunca acabarem. Mesmo nos países mais ricos e ditos organizados e que investem alto em suas polícias superequipadas etc. E um leitor me escreveu dizendo: “o senhor tem razão quando diz que, mesmo entre monges, somos humanos entre humanos e todos somos e sempre seremos alvo”. Calma. Talvez eu não tenha sido bem claro. Acredito na educação. E isso também já falei aqui várias vezes. Sim, mesmo entre monges seremos sempre humanos passíveis de erros. Agora, é óbvio que entre monges a maior parte dos crimes que nos assola diariamente não vai ocorrer. Por quê? Ora, é a Educação. O convencimento. A blindagem através do mais eficiente mecanismo protetor que um ser humano jamais conseguiu superar: o conhecimento. Mas conhecimento com pesquisa, com raciocínio crítico, com o corpo mandando para fora de si tudo o que não presta.

Descobrir que um a cada de dois brasileiros foi vítima de uma organização criminosa montada para sugar todos os nossos dados, é aceitar, de uma vez por todas, que nunca educamos ninguém nesse modelo social que os europeus, notadamente os ditos colonizadores, impôs. Nos indicadores da criminalidade, dados quase impoliciáveis se sobressaem, dados que dependem muito mais da postura do indivíduo do que de sua ação no coletivo. A maioria dos homicídios nasce dentro da cabeça de um sujeito, motivada sabe-se lá por qual motivo muito seu, como a passionalidade. Agora, é claro que a importância econômica do tráfico de drogas, que movimenta bilhões de dólares no mundo e sustenta muita gente, além de corromper outras tantas, também será fator determinante de criminalidade e violência. Mas qual sociedade no nosso planeta está a salvo do tráfico de drogas? Esses bilhões nascem na simples vontade dos consumidores.

Quanto à operação que flagrou as negociações com nossos dados, pouco temos o que fazer. Os principais fornecedores são, infelizmente, empresas e pessoas que cercam nosso cotidiano tecnológico e artificial. Não conseguiremos fugir desse contexto de ausência total de confiança no outro. Nossas contas de luz, nossos dados em páginas de compra, nossos cadastros públicos, até mesmo onde jamais se esperaria tal baixaria, foram negociados. Como voltar atrás? Creio que nem zerando a totalidade dos nossos documentos e recomeçando tudo do zero. Há um estilo de vida que nos exige cadastros até mesmo para ser considerado miserável. Nossos dados estão aí, disponíveis aos inescrupulosos, podemos começar tudo de novo que seremos alvo outra vez. É do ser humano. Infelizmente. Resta fazer a nossa parte, construindo a nossa fortaleza educacional entre filhos e netos, para que os limites éticos sejam respeitados como se o contrário fosse uma doença. E não uma moda, como está posto.