A saudade que matei tem sabor de infância, também. Vem lá dos dias felizes em que morávamos no bairro Tristeza (parece brincadeira, viver dias felizes na Tristeza, mas só eu sei como é verdade), zona sul de Porto Alegre. Na casa de madeira e arborizada onde engatinhei meus primeiros passos, falei minhas primeiras sílabas, li meus primeiros livrinhos coloridos e tive minha primeira redação de protesto censurada (falei da falta de educação dos pais no estacionamento da escola quase passando por cima de nós, crianças, e não me deixaram ler no Dia dos Pais, não sei por que), antes de me mudar para Montenegro.
Meu pai, pelo interior, raramente estava em casa. Éramos eu, minha mãe e minha irmã, bem pequena. Tenho uma saudade enorme daqueles dias. E de quando a mãe comprava um pão de “quartiquilo”, ou pão de quarto, cortava umas fatias generosas e fazia torrada pra gente.
Era o jeito de fazer: o pão era prensado entre a frigideira quente e a bunda da chaleira cheia. A mãe apertava, virava, apertava de novo. Até ficar no ponto. E talvez fosse feito assim em todas as casas de gente mais simples feito nós - só os ricos e as lanchonetes tinham torradeiras. Hoje, qualquer casa tem sua torradeira. É um eletrodoméstico barato. Eu mesmo tinha uma, presente da minha sogra que ficou compadecida, certa feita, de me ver fazer uma torrada igual minha mãe fazia há quase quarenta anos. Eu aceitei de bom grado mas, volta e meia, fazia torrada de chaleira, sozinho em casa. Apertando, segurando, apertando. Sentindo seu cheiro diferente. Seu sabor. Sim, é diferente. Sempre é, quando vem da nossa infância. Eu e minhas saudades escondidas. Sem ninguém para rir ou dizer “usa a torradeira, homem!”. Agora, minha torradeira estragou. Não tem volta. E eu estou muito feliz de fazer torrada de chaleira em nome da tal crise econômica que se avizinha.
