Total violência, nenhum futuro
Desde que li a matéria do Marcel Horowitz no portal do Correio do Povo, esta semana, uma sensação que mistura indignação e repulsa, inconformidade e desesperança, tem me angustiado. Um casal foi preso, suspeito de torturar e matar seu filho, um bebê de apenas nove meses. A Polícia Civil demonstrou que a criança morreu por traumatismo craniano, mas tinha sinais de várias agressões realizadas ao longo desde pouco tempo em que esteve aqui neste mundo. Um bebê, caro leitor! "O corpo da criança tinha lesões de coloração diferenciada, além de fraturas, o que demonstra que as agressões ocorriam ao longo do tempo. Os presos submeteram a vítima a agressões físicas, negligência e intenso sofrimento físico e mental”, Marcel ouviu, da delegada responsável pelo caso. O que move alguém a agredir, de forma tão brutal e contínua, uma criança? Que não tem qualquer chance de se defender? Inacreditável. Inaceitável.
Lembro que, certa feita, eu era o oficial supervisor do policiamento no meu batalhão. Era madrugada e a sala de operações anunciou a denúncia de um arrombamento em residência bem perto de onde estávamos naquele instante. Avisamos sobre a proximidade e ao endereço indicado. Pegamos o ladrão no flagra. Demos sorte: ele já retirava os objetos de furto para a rua, então pudemos enquadrar o distinto - caso contrário, se não saísse do pátio com seus furtos, mesmo arrombando portas e janelas, nossa legislação benevolente não o consideraria um e o deixaria livre. Ainda mais que era um adolescente, faltando coisa de dias para a maioridade. Isto nos obrigou a localizar os pais.
Enquanto a mãe se embriagava num boteco longe de casa, um sujeito que estava no endereço indicado, agarrado numa garrafa de cachaça, vociferou: “não sou pai dessa coisa aí, só padrasto, por mim podem até matar!”. Logo em seguida, entre xingamentos e grunhidos, chutou algo em meio ao lixo acumulado no chão do barraco sem luz. “Aquela (não vou colocar aqui o palavrão usado) me deixou cuidando dessa praga!”. Pensamos que fosse um cão. Um gato. Um boneco. Mas, incrédulos, nos demos conta de que era um bebê, engatinhando entre o breu e a sujeira. A criança nem chorou. Talvez nem chorasse mais. Prendemos o sujeito, acionamos Conselho Tutelar, etc. Fui transferido semanas depois e nunca mais vi aquela gente.
Conto esse episódio aos meus colegas de ofício com um pedido de reflexão: o que esperar dessa criança? Espancada, humilhada, tratada feito lixo? Ele saberá algo sobre amor, acolhimento e respeito ao outro? Ou seu universo interior entenderá apenas agressão e violência, na luta para sobreviver? Qual sua perspectiva de vida? Como ela vê o mundo, tudo, todos? Cenas assim vemos todos os dias, no cotidiano policial, ainda que não façam parte dos cenários floreados por uns e outros por aí. Crianças sem chance de humanidade. Algumas, muitas, são assassinadas sem ter qualquer chance de mudar seu destino. Outras tantas simplesmente não conseguem mudá-lo. O circuito de violência no nosso país tem raízes profundas nesse desamparo. Nessa banalização do cruel, do frívolo e do desumano. Só a nossa capacidade de amar, e de se importar, pode mudar isto.
