Oscar Bessi

Trânsito

 

Domingo passado, dois jovens baianos filmaram o próprio "acidente". O vídeo inicia na diversão irresponsável, close no velocímetro da moto a 140km/h. A velocidade máxima do trecho, conhecido por tragédias, é 40. Descem a Serra das Almas. A estrada é o que vemos por aí: asfalto esburacado, via sem acostamento e as cruéis pistas únicas de vaivém, que uma mera pintura tem pretensão de isolar. De repente, descontrole. E os sons do desespero.

Segundo a ONU, nosso trânsito mata mais por ano que toda a guerra do Vietnã. Rambo encararia? Um amigo, que gosta de simplificar soluções, diz que basta vetar ao brasileiro o direito de dirigir. Há quem acredite na fórmula das proibições. Mas a piada sem graça tem origem: por aqui, há mais perigo num sujeito ao volante do que em alguém com arma na mão. O trânsito mata mais que homicídios. E que o câncer. Metade da população o teme. Se continuar neste ritmo, 2020 trará quase dois milhões de mortes e outros vinte milhões de mutilados. Como, se nosso código é tão moderno e há multa pra tudo? Pois não deu certo. Não por aqui. A Alemanha decidiu enfrentar o problema há quarenta anos e, desde então, reduziu em mais de 80% suas perdas. A China só precisou de dez anos para reverter seu quadro horrível. Mas qual a fórmula para a vida? Tá, regras existem. Primeiro passo. Campanhas também. Aí vem a cultura do consumismo e o aumento descontrolado na frota de veículos, o desmonte das vias alternativas para transporte de pessoas e cargas, as péssimas estradas e seus desvios (de dinheiro), o descontrole e deboche - até na fala relâmpago do patrocinador de futebol - sobre a questão do álcool. E uns quantos poréns na educação equivocada.

Jogar a prevenção só no colo de policiais, radares, panfletos ou professores, que deveriam ser apenas partes do processo, é um erro. Não sou especialista. Tenho horror à arrogância desta palavra. Mas o Brasil é cheio deles. E ouvi de um: "precisamos entender, antes de tudo, os riscos de estar no trânsito". Opa! Tocou meu alarme de leigo. Permito-me discordar: precisamos entender, antes, é o respeito ao próximo. Ao ser humano. Não pensar nisto apenas em atividade escolar de meia semana, mas trazer este valor presente o tempo todo, desde sempre, de casa. Inverter o olhar e se acostumar a ele. Alcançar que tirar o pé não é ver pardal, mas saber que há vidas ao seu redor. "Entender" perigos do trânsito como primeiro passo é admitir que é assim mesmo, normal abusar, normal morrer, tem é que se cuidar ou a culpa é sua. Sou teimoso, ainda opto pelo caminho mais difícil. Não o que ensina a ter medo, mas o que leva a ter amor. Tá, não sou especialista. Hein? Trazer uns da China? Olha...