Que a Brigada Militar de hoje está entre as forças policiais mais qualificadas do Brasil, todos sabemos. Temos provas diárias disto. Quase um milhão de ocorrências atendidas no estado, por ano, com uma eficiência quase total. Porém, toda instituição é composta de seres humanos. Que podem errar. Médicos, engenheiros, juízes erram. São humanos. A madrugada trágica de Pelotas, que pode ter terminado tragicamente por conta de um mal-entendido na ação da BM, dói. Dói porque envolve perda de vida. Dói porque lança sombras sobre uma instituição que, na imensa maioria das vezes, acerta, ainda que sob pressão, risco e urgência. E dói porque nos lembra que a segurança pública brasileira ainda está em construção. Ainda aprende. Ainda erra. Ainda precisa evoluir. E ainda carece de que nós, sociedade, deixemos claro o que, afinal, esperamos dela.
As instituições policiais brasileiras, como as outras instituições públicas de saúde, educação, trabalho e etc., evoluem como instrumento de cidadania a partir da análise dos seus erros e acertos. O caso do “homem errado” (1987), a cinematográfica fuga do assaltante Melara (1994) ou o ônibus 174 no Rio de Janeiro no Rio de Janeiro, expuseram falhas, improvisos e limites do modelo policial dessas épocas. Diagnosticados e modificados. Cada um desses fatos também provocou choque, indignação e luto. Vieram novos protocolos e ajustes operacionais. Mais formação e debate, mais ciência olhando para a atividade policial. E, como na maioria dos países do mundo, muito trabalho para que um novo erro não aconteça. Mas o fator humano sempre será imprevisível.
Pessoas ou instituições não evoluem no conforto. Evoluem na crise. A polícia brasileira de hoje não é a mesma de décadas atrás. Há mais técnica, mais controle, mais reflexão interna. Há Direitos Humanos em seus cursos de formação e aperfeiçoamento. O resultado pode parecer distante do ideal, mas é cacoete nosso não aceitar um erro, mesmo depois de um milhão de acertos. E é justamente a análise honesta dos erros que empurra o sistema para frente. O fato de Pelotas será apurado. A dor é irreversível. Mas as investigações dirão onde, quando e como o pretendido se distanciou da realidade. Aguardemos a justiça agir com seu equilíbrio.
Este debate, porém, não pode parar na polícia. Ele precisa alcançar a sociedade e a legislação que a orienta. Que leis queremos? Que tipo de legislador escolhemos? Que contexto legal oferecemos a quem atua na linha de frente para enfrentar o tanto de crimes e violências no cotidiano nacional? Quando o povo deixará de dormir com medo de ser roubado? Segurança pública é reflexo de escolhas coletivas. Casos dolorosos como este não devem servir apenas para apontar culpados, mas para amadurecer instituições, aperfeiçoar normas e alinhar o Estado ao desejo real do povo brasileiro: menos tragédias, mais preparo e mais humanidade. O que passa muito por quem escolhemos para conduzir estes processos.
