Oscar Bessi

Trinta e oito

(conto)


 



Se a pelada era no campinho do Horto, eu não faltava.

Campinho modo de dizer. Era como a gente chamava aquele terreno baldio de pura terra, sujeira e buracos. E tão inclinado que os mais experientes tinham uma jogada ensaiada: o drible da vaca à beira do barranco. Era tocar e correr. A bola ia, fazia a curva, e voltava lá adiante direto no pé. Só não podia chutar muito forte que ela caía na ribanceira. Aí ninguém queria buscar. A gente mandava os mais toscos rolar no barro e depois escalá-lo entre as toneladas de lixo da vizinhança. E tinha que dar balão lá de baixo pra bola voltar ao jogo, que ninguém esperaria pelo pereba, óbvio.

Desde criança eu ouvia a conversa de que ali seria o posto de saúde. Pra sorte nossa, nunca saiu de papo político em época de eleição. Perto dali até havia um campo, campo mesmo, era pra ser da escola, só que o mato já estava mais alto que o travessão enferrujado. Seu Aristides botou um cartaz feito à mão, “proibido caçar animais silvestres”, pra tirar onda. O pessoal da prefeitura arrancou a placa. Mas não cortou a grama.

O sujeito apareceu ao lado do Seu Aristides no início do jogo, dividindo o guarda-chuva. Não dei muita importância. Seu Aristides era o dono do açougue e arregimentava a gurizada para disputar um torneio lá que outro. Organizou a rifa para o jogo de camisetas que a gente usava e ele nunca deixava levar pra casa, depois que sumiram duas. Ele gostava do meu futebol. Dizia que eu tinha talento e seria um craque. Eu já tinha passado da fase de deitar na cama à noite, fechar os olhos e sonhar em ser jogador de futebol. Minhas preocupações, agora, eram outras.

A Iza, por exemplo.

Se eu fosse um jogador de futebol famoso, teria carrão e roupa fina. Aí, a Iza largava aquele estrume do Maicon.

Mas preocupação, mesmo, era o Loló todo dia me apertando. Queria que eu vendesse pedra pra ele, me dava um revólver e etc. Eu desconversava. Perdi um primo, morto a tiros pela polícia, e não tinha certeza de que aquela vida me servia. Fora ouvir a mãe repetir toda hora que tinha certeza, eu viraria vagabundo. Saco.

Se eu tivesse uma arma, dava um fim no Maicon. O estrume. Ele devia ser três anos mais velho que eu e uns dez centímetros mais alto. Tinha outras namoradas, além da Iza. Ela não merecia. Era uma menina legal.

Acabou a pelada quando a chuva engrossou. Eu ensaiei correr para casa e ouvi o Seu Aristides me chamar.

“Vem cá, Bicão!”

Meu nome é André, mas só me chamam de Bicão. Não quero falar sobre isso.

Ele me apresentou ao outro, a mão no meu ombro. Era um sujeito jovem com olhar de metido.

“Bonito gol. Parabéns.”

Eu havia feito uns oito gols. Não quis perguntar de qual ele falava.

“Tá a fim de fazer um teste lá com a gente?”

Só então reparei no abrigo. Todo verde, com listras laterais em amarelo e branco e no peito o símbolo do Americano, time da cidade que disputava a terceirona do estadual. E, embora nunca saísse daquilo, a escolinha deles se orgulhava de já ter mandado garotos para o Inter, Caxias, Vasco e por aí vai. “O Maneco é do Americano”, disse o Seu Aristides, talvez porque fiz uma cara de espanto ao olhar o escudo bordado no casaco, as letras AFC se espremendo num ovo verde.

“Já é!”, respondi na hora.

“Aparece lá na quinta.”

“Quinta?”, precisei repetir.

“Às oito. Tem seletiva.”

Seu Aristides sorriu satisfeito. Era um veterano gente boa, viúvo e sem filhos, apaixonado por futebol. Dizia gostar mais dos meninos que dos adultos da vila, a lhe dar calotes no açougue. O Loló sempre avisava, não deixem assaltar o seu Aristides.

Eu já havia me despedido e nem queria mais saber de correr, de tão empolgado, quando o Maneco me chamou de volta.

“Precisa estar de chuteira.”

E essa agora?

Perguntei pro Loló se ele tinha uma pra me emprestar. Ou vender, eu pagava depois. Ele mandou vir uma sacola de bagulhadas. “O mané fez a limpa numa casa lá, mas não trouxe nada que preste. Dei uma pedra só e mandei caminhar. Já vai aprendendo, isso aqui não é free shop”, resmungou. “Vê aí, tinha uma chuteira”.

Tinha. Mas de salão, sem trava. Não se joga futebol de campo com uma sola daquelas, escorrega o tempo todo.

“Que número tu calça?”, perguntou o Seu Aristides, no açougue, onde fui depois.

“Trinta e oito.”

Ele coçou o bigode grisalho e pensou um pouco.

“Tenho duas, velhas. Deixaram aí. Não sei os números, vê se serve.”

Ele morava nos fundos, sumiu pela porta lateral e voltou um tempo depois. Sempre tive curiosidade em conhecer a casa do Seu Aristides. Minha mãe dizia que casa sem mulher é um lixão. Feito o meu quarto. O problema é que o meu quarto era quarto de todos os meus irmãos, o que incluía duas meninas, e o Pedrinho, com três anos, o mais bagunceiro. Mas ela tinha mania de só reclamar de mim.

Ele trouxe as duas e experimentei. Uma era tamanho 41, a outra 36. Não dava, eu não conseguiria chutar direito com a folgada demais, muito menos com a apertada, que mal coloquei e já me doía os dedos.

“É depois de amanhã. Tenta por aí, pede pro pessoal. Também vou perguntar pros conhecidos. Alguma a gente acha, vai dar tudo certo.”

Não deu nada certo. Quem tinha, não podia emprestar, quem podia emprestar, não servia. Já era tarde de quarta, eu andava de bobeira pelo centro, desolado, e passei por uma loja de artigos esportivos. Parei para olhar a vitrine. Cruzes! Que preço era aquele?

Voltei no Loló.

“Fala, mano.”, ele me saudou, cerveja na mão.

“Quero começar amanhã.”

“Opa! Senti firmeza.”

“Mas preciso da arma hoje.”

Ele me olhou desconfiado.

“Pra quê?”

“Uma parada aí. Coisa rápida.”

Ele pensou um pouco, terminou a cerveja e levantou. Trouxe um trinta e oito com seis balas, enrolado num pano.

“Abre o olho, moleque.”

Enfiei o revólver na bermuda e voltei à loja. Pedi uma chuteira 38. Experimentei duas, a segunda serviu que foi uma beleza. Saquei a arma, apontei pra cabeça do vendedor e mandei todo mundo pro banheiro.

Aproveitei para pegar um par de meias verdes.