Oscar Bessi

Um brasileiro violentado a cada instante

Nesta última quinta-feira, foram divulgados os resultados do 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Dados preocupantes. Caóticos. A cada onze minutos, uma pessoa é estuprada no Brasil. Cinco vítimas por hora, todos os dias. Caramba! A violência sexual é uma das formas mais horrendas de violência contra um ser humano. Há um conjunto de danos físicos, emocionais e traumáticos muitas vezes irrecuperáveis pela vida inteira. E a cada hora que passou aí no seu relógio, conte mais cinco vítimas. É demais. E agora a pior notícia: pesquisas na área de saúde dão conta de que talvez nem 10% dos casos chegue ao conhecimento da polícia. Por vergonha, tabu ou medo. Ou seja: o que já parece ruim, pode ser dez vezes pior.

A cada nove minutos, um brasileiro é assassinado violentamente. Na guerra da Síria, de onde as pessoas fogem exasperadas de medo e horror, entregando-se a um êxodo suicida, que todos os dias vitima centenas, há menos mortes. É. Aqui, são cerca de 160 execuções por dia. Nossa débil democracia tem consigo uma guerra das mais absurdas. Poucas realidades matam menos que o cotidiano brasileiro. E nem falamos das mortes no trânsito, outra aberração número de vítimas. Conviva-se com um parâmetro desses. E a velocidade febril do roubo de carro impressiona: um por minuto. Exatamente. Conte um minuto aí: mais um carro acaba de ser roubado. Um dia será o seu. A má notícia é que, no país do desarmamento, as armas estão cada vez mais soltas pelas ruas e nas mãos desses ladrões. Que matam por qualquer “susto”.

Então se pergunta qual a saída. Endurecer as leis, dirá alguém. Mas nenhum desses crimes acima é permitido. Tá liberado, estuprar? Não. Mas acontece a todo instante. Não é falta de lei. E pior, nem falta de punição: estuprador é preso e ganha castigo terrível e duplo, todos sabem como funciona a “lei da cadeia” para estupradores. Também não está liberado geral matar, portar arma e roubar carro. O que leva a este descontrole, então? Muitos fatores. Mas a raiz de tudo, com certeza, está na Educação. Na Cultura. Justamente onde os gestores públicos adoram cortar gastos e dizer que há jeitos mais baratos de se fazer políticas públicas. Quando não a consideram descartáveis. Aí está a Feira do Livro de Porto Alegre, cidade que vive dias violentos a ponto de deixar a velha Chicago dos anos 40 ruborizada. Daria para aproveitar este evento magnífico e construir uma política pública municipal e estadual de leitura e humanização, o ano inteiro, para culminar nos encontros com escritores em novembro. E a cultura da violência está aí, nesses números absurdos. Porém, não é só jogando preso como lixo em contêiner, ou multiplicando policiais nas esquinas, que se muda algo. É preciso mais. Há que se mudar a cabeça dessas gerações violentas. Ou nós seremos os descartáveis.