Oscar Bessi

Um caso perturbador

Ela herdaria uma das maiores coleções de arte do país. Seu pai era um romeno que chegou clandestino ao Brasil em 1948 depois de passar um ano fugindo junto com um grupo de judeus. Ele foi um dos pioneiros, aqui no país, no mercado de artes. E fez fortuna. Mesmo com o incêndio que destruiu parte do seu acervo em 2012, ainda possuía uma bela fortuna em quadros. A filha, que em suas redes sociais tinha uma foto abraçada ao pai, ainda menina, num gesto de intenso carinho, também chamou a atenção dos noticiários naquele ano, durante o sinistro. Não pela parte considerável da imensa fortuna perdida. Mas por ter salvado dois cães e diversos gatos das chamas. Como o pai, amava os bichinhos. E defendia a causa animal em suas redes. Um bom coração, uma alma generosa capaz apenas de fazer o bem? Resposta errada. Ela protagonizaria um dos crimes familiares mais cruéis de que tivemos notícia nos últimos dias.

Há cerca de dois anos, a mulher sobre a qual estamos falando, a dona Sabine Boghici, segundo a Polícia do Rio de Janeiro revelou na Operação Sol Poente (nome do quadro de Tarsila do Amaral, avaliado em R$ 250 milhões e um dos roubos cometidos pela acusada), bolou um golpe contra a mãe. Contratou falsas videntes para que abordassem a idosa na rua e, revelando detalhes sobre a família que impressionaram a vítima, a fizeram acreditar que aquelas pessoas teriam mesmo dons premonitórios. Elas a alertaram contra o perigo de uma morte iminente na família: a da filha. Sim, a golpista que elaborou o plano todo. A pobre senhora rica chegou em casa e contou para aquela criatura que um dia cuidou e protegeu e estava garantido o sucesso do plano. A filha fingiu pavor e pediu que a mãe pagasse a “proteção espiritual”. E assim lá se foram R$ 5 milhões. Até que a idosa desconfiou. Aí foi encarcerada pela filha e passou a ser agredida de forma contumaz. Sob ameaça, transferiu mais R$ 4 milhões para o grupo de golpistas, comandados pela filha. O valor roubado ultrapassou R$ 700 milhões.

Costumamos, aqui, refletir sobre a ausência de amor de tanta gente. Mas é incrível como no cerne desses casos que se repetem, do esquecimento dos valores mais humanos ao desdém pelo sentimento mais simples de pertencimento familiar, a causa da ruptura gira sempre em torno do dinheiro. Por dinheiro se mata. E se mata inocentes sem qualquer pudor. Por dinheiro se vende  drogas que gerarão tantas mortes. Por dinheiro muita gente fará vista grossa contra o que deveria combater, ou joga no lixo a ética e o caráter. Por dinheiro, e muito dinheiro, uma filha joga uma mãe nas mãos de bandidos. Uma filha espanca uma mãe idosa. E por aí vai. Como não parece possível um mundo sem dinheiro, que pelo menos o feito perturbador que nos causa fatos como esse nos tornem semeadores de humanidade. Na nossa casa, no nosso trabalho, onde estivermos. Que o dinheiro não seja nada além do que ele é, só uma parte descartável da vida. Nunca a essencial. O  essencial é o amor.