Um lobo mau em cada esquina
No meio da década de 70, eu era criança e tinha o pesadelo recorrente de que me perdia da minha mãe no Mercado Público. Ela, minha irmã no colo e muitas sacolas de compras. Eu assustado a bater cabeça na sua cintura, tenso, até que de repente não havia mais mão para pegar e ela desaparecia entre sacos de ervas, bacalhaus, panelas e velas da sorte. Eu acordava chorando. Tinha convicção de que cedo ou tarde me perderia por lá e, toda vez que ela nos embarcava no Liberal-Tristeza para ir ao centro, não queria passar nem perto daquele lugar. Precisei, garoto taludo, ir sozinho para desafiar meus fantasmas. Até hoje amo o Mercado.
Acompanhávamos no rádio as reviravoltas sobre o sequestro do menino Carlinhos, no Rio, com as descobertas de Bechara Jalkh, o Sherlock Holmes brasileiro. Eu via a foto do guri na Folha da Tarde e era como se ele fosse meu amigo. Torcia pelo seu reaparecimento, impossível ficar tudo assim, sem solução, ele longe dos pais. Pois lá se foram mais de quarenta anos e até hoje ninguém sabe que fim levou Carlinhos. Bechara Jalkh diz que sabe. Eram os anos 70. Acreditávamos em OVNI, no monstro do Lago Ness, na superforça do ki-chute e ouvíamos Bee Gees. Naqueles anos, sequestro ou desaparecimento comovia. Não vivíamos a banalização da violência.
Hoje, há cerca de 50 mil crianças e adolescentes dentre os 250 mil brasileiros que desaparecem todo ano. É muita gente. Não dá nem para apontar uma “maior causa”. Tráfico de pessoas, de órgãos, adoção ilegal, prostituição, rituais satânicos, fugas de maus tratos, golpes, vinganças, etc. Em 2010 o governo federal anunciou, com alarde, o Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes desaparecidos. Foi só alarde em ano eleitoral: a página está ar, desatualizada, nunca chegou a 400 cadastros. ONGs com vítimas tirando do próprio bolso ajudam mais do que essa falácia pública. Tremenda falta de respeito com um drama tão grande e presente na vida dos brasileiros.
O 25 de maio se tornou referência mundial sobre crianças desaparecidas com o caso do nova-iorquino Etan Pats. A Polícia Civil gaúcha fez, neste dia, uma grande operação e localizou mais de quarenta crianças e adolescentes desaparecidos só em Porto Alegre. Como enfrentar números tão absurdos? Olha, há um punhado de regras e orientações policiais sobre segurança que podem ser seguidas. Mas tudo perde o sentido se não focar numa palavra-chave: amor. Quem ama se interessa, cuida, orienta, acompanha, não dá chance à vulnerabilidade. Quem ama saber que é responsável de fato por alguém que colocou neste mundo. Protege. Minha mãe foi e voltou de ônibus ao Mercado milhares de vezes naqueles anos, com suas sacolas, nunca largou nossas mãos de criança. Ainda assim, esses dias sem lógica podem nos pegar de surpresa, podem esconder um lobo mau em cada esquina. Contra o perigo, amor. Ainda é a melhor receita.
