Quero declarar todo o meu amor a este silêncio que me amanhece. Um silêncio de manhã nem fria, nem quente, nem incerta ou com decisões tomadas, apenas um amanhecer. Um novo começo entre tantos recomeços possíveis. Um silêncio composto de pássaros lá fora que o enfeitam, sem quebrá-lo, com seus cantares. Um silêncio de pensamentos mornos que me fazem sorrir por nada.Mas não deixaria de dizer sobre este amor imenso que sinto por tudo o que não foi, jamais será, silêncio. As vozes inquietas que fazem ecoar sinceridades em suas paixões mais humanas, em suas inquietudes tão suas ou de todos, em suas esperanças sinceras. Só as vozes mercenárias não me agradam. São falsas demais. Poluem.
E meu amor à música? Ela e o silêncio, em certas horas, formam um casal perfeito: enquanto ela permeia o ar que respiro, induzindo aos sonhos, ele, cá em mim, de mãos dadas com ela, escreve. Ou pensa. E me recicla.
As vozes dos amigos, as vozes dos que nos querem bem são musicais, perceberam? E são remédios.
Quero dizer, ainda, que amo a humanidade. Mesmo que a critique vez ou outra por seus cacoetes predatórios. "Falo pro teu bem", diriam os pais responsáveis. Mas não pensem que há, aqui, um escorregão de arrogância: não sou, nem pretendo ser, um pai da humanidade, nem o senhor da "última palavra" mais certa. Não cabe a um grão de areia querer papel maior do que lhe coube por destino. Amo a diferença, todas essas diferenças que nos tornam tão iguais!
E, acima de tudo, preciso dizer aos que são meus, à minha família, o quanto eu os amo. Quando fui dizer ao meu pai, já era tarde. Não quero repetir o erro. E quero crer que terei muito tempo ainda para demonstrar meu afeto. Os filhos, estes sei que não há palavra criada neste mundo humano, ainda, que se baste para deixar claro o amor infinito e incondicional que sinto por eles. Mas é coisa de gesto e olhar, de atitudes, de energias. Que certamente um dia entenderão, se é que já não entendem. A sensibilidade que temos sempre nos mostra as verdades mais cruas, sem máscaras ou retoques de tinta.
Talvez eu não ame, confesso, todas as ações policiais em que me vi envolvido. Houve perdas. Houve rachaduras em minha alma. E erros e derrotas. E também eu preferia já ter tido, como escritor, deixado algo de alguma relevância para um coletivo de leitores. Mas mesmo este mediano policial e escritor, ou escritor e policial - não há hierarquia neste ser, há apenas o ser, um só, humano e mínimo, o pai e o filho, o profissional e o amigo, nada além -, sou muito feliz pelas opções que fiz.
Ah, Deus! Como é bom respirar outra vez! E sentir! E sonhar! E poder ter o direito à gana das melhores lutas pela paz!
Enfim. Amo a vida. Mesmo que ela certas vezes nos assuste, ameace escapar - porque um dia partirá, de fato e para sempre, nisto já estamos acertados -, mas talvez ela pensado melhor e, por enquanto, decidiu ficar. E é tao bom quando ela fica.
Porque fica por amor.
