Versões da história
coluna da edição impressa de domingo, 13/12/15
Na Feira do Livro da capital, em novembro, ganhei de presente "A minha versão da história", de Carlena Weber, lançado em agosto último. Gentileza do amigo Gustavo Trevisi, autor do Blog da Acessibilidade. Há quinze anos Carlena sofreu um acidente de trânsito que a tornou tetraplégica. Cadeirante. Recortes de sua vida já foram contados em matérias aqui no Correio do Povo. Agora, há uma lição nestas páginas - nas pretas ou nas brancas - que a autora, delicadamente, dedica às mulheres que com ela reescreveram a história e reinventaram caminhos. Mas a lição de que falo não tem nada de lamúrias, ou auto-ajuda, ou manual de superação. Há cenas que chocam, mas há as que encantam e as que divertem. Como quando chega a pensar que será assaltada, mas o que um homem quer é lhe dar esmola. Quem disse que deficiente precisa de esmola? Ou de pidedade? Respeito, apenas isto. É do que ainda estamos distantes. O livro é uma aula de consciência, humanidade e cidadania.
Sobre acessibilidade, deixo a palavra com Gustavo e Carlena. Lamento que alguns gestores públicos ou legisladores não se dêem ao trabalho de ler o que eles escrevem e defendem com conhecimento de causa. E permitam-me voltar ao tema do trânsito. Pois, no cerne de tudo, há um mesmo problema clássico: falta de respeito ao próximo. Se lembrássemos automaticamente que há outros, outras vidas, no mesmo contexto e ao mesmo tempo, não teríamos esta média digna de estatísticas de guerra no país. São mais de 60 mil mortes por ano e mais de meio milhão de mutilados só no trânsito brasileiro. A grande maioria dos casos traz, na raiz, o desrespeito e a imprudência. O excesso. A falta de amor ao próximo.
Os mesmos gestores públicos que dão de ombros à acessibilidade plena dos transportes e espaços nas cidades, asfaltam estradas sem acostamento, que se esburacam com qualquer chuvisqueiro, ainda escuras e sem sinalização. Ignoram a loucura das pistas que o descontrole da falta de alternativas, como um transporte de qualidade pensado para passageiros ou carga, cria, ao saturar as vias de carros e caminhões em ritmo alucinado. Enfraquecem o potencial humano dos órgãos fiscalizadores. Mas é claro que nós, que gritamos contra a impunidade e as vergonhas resolvidas a tabefe no seio político nacional, não fazemos muita questão de mudar isto. Porque basta a atuação mais forte do fiscalizador e já se apela ao jeitinho para não dar nada, ou ao carteiraço de toda ordem que ameaça, à ofensa ao trabalhador da segurança. A história se repete em várias versões, todas elas de fuga da responsabilidade. O problema é que qualquer um pode ser a próxima vítima. Mesmo os que se acham semideuses. E vêm aí as festas de final de ano. Com elas os excessos, as impaciências e as estradas lotadas. A loucura.
