Oscar Bessi

Violentos

Coluna dominical da edição impressa

 

Diz uma pesquisa que a polícia brasileira está entre as mais violentas do mundo. Ela considera a média de seis mortes por dia, causadas pelos agentes policiais do país. E mesmo que seja verdade para não comemorar, eu desconfio das estatísticas absolutas. Números nunca me dizem nada quando quero saber sobre seres humanos. Para chamar alguém ou uma instituição de violento, preciso avaliar uma série de interferências. Válidas para os dois lados desta guerra. Sempre.

Há pesquisas que não passam de mero ajuntamento de números absolutos e descompromissados, oriundos de fontes nem sempre confiáveis. Duvido que elas levem em consideração o número total de policiais que trabalham no Brasil. Meio milhão? Mais? Ou avaliado em que condições eles - e elas - vivem e exercem suas funções, com que equipamentos enfrentam ruas, estradas, praias, campos e morros. Que nível de prioridade eles têm para seus governos e suas próprias cúpulas. Qual o poder do carteiraço na anulação do ato policial. E, principalmente, o fator de interveniência político-partidária em sua gestão, um crime  hediondo contra qualquer serviço público, visto que o patrão das instituições públicas é o povo, nunca determinado partido ou governante. Conduções por interesses privados, não coletivos, combinam é com ditadores.

Não sei se foram estudados os reflexos da débil, ou pitoresca, legislação brasileira, nesta sensação incômoda de não dar nada que aflige e torna, a todos, reféns do medo e da frustração. Também não sei se a pesquisa soube que em muitos lugares do país não se manda policiais para acompanhamento psicológico, periódico, para não se perder o pífio efetivo disponível para as ruas. Ou que o policial brasileiro, em sua maioria, ganha mal, faz bico, dorme e se alimenta mal, além de não relaxar. Também não sei se a pesquisa quantificou os milhões de ocorrências atendidas todos os dias, neste país continental, e que se encerram de forma pacífica e satisfatória.

Gostaria de saber se outros números incidiram sobre este conceito de violência. Como os 50 mil brasileiros assassinados por ano, mais de 130 por dia, ou 5 por hora. Ou que a cada meio minuto um brasileiro é assaltado. Que um terço das 50 cidades mais violentas do mundo é brasileiro. E que somos o 11º país em insegurança do planeta, batendo Colômbia e suas FARC. Somos, ainda, campeões mundiais de consumo de crack - e, desconfio, de inércia ao combatê-lo. Ainda assim a polícia, que desperta desconfiança de 70% dos brasileiros, segue bem mais confiável para o seu povo do que os partidos políticos, em quem 95% dos nossos não confia de jeito nenhum. Enfim. Eu também gostaria que a polícia combinasse com um país muito menos violento.