Pitlane

Christian Fittipaldi analisa Donington 1993 dentro da pista: "Ayrton tinha um poder de se adaptar"

Piloto da Minardi finalizou em sétimo a corrida histórica de Senna, 30 anos atrás

Senna não deu chance às Williams no molhado
Senna não deu chance às Williams no molhado Foto : CP Memória

Donington Park recebeu apenas uma corrida de Fórmula 1, 30 anos atrás, e nunca mais. Não precisou, já estava na história. Em 11 de abril de 1993, Ayrton Senna deixou sua obra prima no automobilismo, ao fazer aquela que é considerada a maior primeira volta da história, pulando de quinto para primeiro; para depois ganhar com mais de 1 minuto de vantagem para o segundo colocado. Lá no meio do grid, em 16º, Christian Fittipaldi sobrevivia no cockpit de sua Minardi ao inclemente clima britânico. "Choveu antes da classificação, choveu na corrida, choveu no dia seguinte..."

Na perspectiva de quem tinha que "trabalhar para ficar na pista" em Donington, a capacidade de ler as condições, a aderência e as mudanças é que levou Senna ao topo. "A gente não tinha muita experiência naquela pista, alguns carros às vezes testavam", lembra Christian. O próprio Senna estreou na F1 por lá, num teste privado da Williams 10 anos antes, em 1983. Na ocasião, por sinal, quebrou o recorde da pista, que só seria batido de novo exatamente em 1993, por Alain Prost. O francês anotou a pole-position com a Williams de outro planeta, a 1min10s458. Senna fez apenas 1min12s107 para largar em quarto. "A chuva não estava tão crítica na hora da largada, era chuva normal, nada absurdo, que a gente estaria desconfortável. A quantidade de água não era problema, mas o para e chove deixou todo mundo maluco", salienta o ex-piloto, sobre a atmosfera na hora de formar o grid.

"O Ayrton fez uma largada muito boa, foi de quinto para primeiro, deu aquela enroscada com o (Michael) Schumacher, mas o 'alemão' já dançou na primeira curva", relata Christian. "Logo veio a vez do (Karl) Wendlinger, que parecia parado; e na metade da volta já passava o Hill. Na penúltima curva, passou o Prost", detalha o contemporâneo das pistas.

A impressão, em alguns momentos, é que os outros carros estavam pilotando na chuva e Senna no seco. Christian enfatiza, estava molhado igual para todo mundo! "Definitivamente, o Ayrton tinha um ritmo mais agressivo que os outros. Durante a carreira, e para quem estava ali perto, era claro que ele tinha um poder de se adaptar às condições difíceis", comenta o ex-piloto. "Ele transformava isso numa vantagem clara sobre os concorrentes", define.

Na segunda volta, Senna já tinha 2 segundos para Prost, seguido de Hill e de outro brasileiro impressionante, Rubens Barrichello, que havia partido do 12º lugar e aproveitou os enroscos de Schumacher, Andretti e Wendliger, além do ritmo cauteloso dos demais para ganhar ainda mais posições que Senna.

A partir daí, não só a habilidade para julgar a aderência faria diferença, mas a sensibilidade para identificar as mudanças na pista. "Do jeito que eu enxerguei ali dentro, tinha duas estratégias que funcionavam. Uma delas era a cada cinco minutos entrar no box e ir trocando de pneus a medida que a pista ia mudando", explica Christian. "O Ayrton entrou seis ou sete vezes. Ia secando, ele já pulava para os slicks, dava uma molhadinha, ele estava lá de novo", aponta.

"A segunda era manter os mesmos pneus e só trocar em momentos bem críticos. Ia ter períodos que ia andar mais lento, mas evitava até três entradas no box", comenta. "Isso ganhava muito tempo, mas tinha o perigo na pista. Foi o que eu escolhi." Eventualmente, Christian se equilibrou com aquela Minardi de fundo de grid, com ainda menos aderência que a McLaren e a Jordan de Barrichello rumo ao sétimo lugar.

Vale lembrar que os carros dos compatriotas tinham controle de tração e algum tipo de auxílio ativo na suspensão, o que tornava o carro mais estável e aderente nas diferentes condições. "Com a Minardi, tudo mecânico, era mais complicado e tinha que pensar mais", descreve. "Eu tinha o que eu tinha e sempre procurava fazer o melhor possível. Sinceramente nem adiantava ficar pensando e chorando em cima da situação. Não existia aquele negócio de suspensão ativa."

Segundo Christian Fittipaldi, piloto nenhum gosta para valer de correr no aguaceiro. "Nem o Senna gostava de andar a 300 e poucos por hora sem enxergar direito o que está na frente", enfatiza. "Andar na chuva, sinceramente, nunca fui apaixonado. Mas eu acho que ninguém é. Parte do princípio que só a visibilidade já incomoda muito."

Para ele, contudo, os brasileiros são mais versáteis que os estrangeiros para essas condições. "Eu acredito que somos muito criativos, pois sempre estamos inventando e reinventado, aproveitando qualquer chance", afirma. "E a chuva é isso na Fórmula 1, ela dá chances de especular, tentar algo diferente. Quando vinham as condições adversas, os brasileiros sempre acharam as soluções."