Pitlane

Minardi de 2001 foi carro o suficiente para Fernando virar Alonso



Muito se analisa, atualmente, que não vale a pena correr na Fórmula 1 nas equipes nanicas, lá no fundo do pelotão, apenas para estar na categoria. Isso praticamente classifica Caterham e Marussia como chicanes móveis e tira a função delas como válidos competidores do certame. É bom sempre utilizar exemplos práticas do passado para quebrar pré-concepções como essa. Vamos analisar, aqui, o momento que o espanhol Fernando Diaz se transformou no fenômeno que seria bicampeão mundial, Alonso.

Era o ano de 2001 e o garoto que passou por Nissan World Series e Fórmula 3000, iria estrear no topo do automobilismo com a Minardi, aos 19 anos. A equipe em questão, era o mais nanica que qualquer nanica poderia aspirar a ser, a princípio de três a quatro segundos atrás dos concorrentes em condições normais e com um motor Cosworth uns quatro anos desatualizado rebatizado de European. A marca, por sinal, era a empresa de aviação de Paul Stoddart, que acabara de salvar a equipe da falência e fechamento.

Cenário perfeito para afundar uma carreira em umas 20 corridas, certo? Aí que a história provou o contrário aos críticos. O começo do espanhol até foi complicado, pois seu companheiro, o brasileiro Tarso Marques, já tinha experiência com Fórmula 1 e chegou a andar na frente. Logo, contudo, o talento diferenciado de Alonso falou mais alto. O carro não ia para frente, apesar do projeto razoável do ótimo engenheiro Gustav Brunner. Mas a pilotagem do espanhol, sem a pressão por resultados diretos, crescia a cada corrida.

Ao chegar na temporada europeia, Fernando estava calibrado para mostrar suas credenciais de piloto de Fórmula 1. O primeiro momento digno de nota foi o Grande Prêmio da Inglaterra, em Silverstone. Depois de circular no fundão por tanto tempo, brigando apenas com os colegas de equipe, o espanho queria incomodar o meio do pelotão. E foi aí que surgiu a oportunidade:  Giancarlo Fisichella estava num dia terrível com a Bennetton e Alonso aproveitou para cutucar. Apesar da falta de potência, usou o vácuo para se manter próximo e buscou algum jeito de passar o rival, futuro colega de equipe. Brigou com o carro tudo o que deu, mas faltou cavalaria para a Minardi fazer uma ultrapassagem histórica para aquele momento do time. (Assista no vídeo onboard abaixo)



Mas ainda era o ensaio. Na prova seguinte, o GP da Alemanha, o jovem piloto voltou a usar o vácuo para compensar as deficiências da sua Minardi. Hockenheim foi feito sob encomenda para isso, afinal. Depois de largar em 21º, já que nos treinos não tinha ajuda dos carros da frente, Fernando se pendurou na traseira da Arrows de Jos Verstappen, sempre bom de reta, e foi aproveitar uma tarde inteira seguindo o pelotão intermediário. Ao fim da prova, cruzou a linha de chegada em um belo décimo lugar, apenas uma volta atrás dos líderes. Fosse na atual regra da F-1, teria somado um ponto.

Mas tudo isso era ensaio para uma apresentação digna de grande piloto e sem ajudas externas, seja por inteligência, ou situações de pista. Fernando virou Dom Alonso das Asturias no GP dos Estados Unidos, em Indianápolis. Mais precisamente na classificação de sábado é que a Fórmula 1 teve uma demonstração de dedicação total à pilotagem, quando ele equilibrou na orelha sua Minardi.

No fim da volta rápida, 1min13s9 ficou longe da pole-position, mas a bordo do carro que foi ano inteiro 4 segundos mais lento que a concorrência, ele perdeu 2,2s apenas e ficou no 17º posto do grid. E atrás do espanhol não tinham nanicas, pois ele superou Jacques Villeneuve (BAR-Honda), Enrique Bernoldi (Arrows), Jos Verstappen (Arrows), Tomas Enge (Prost) e o próprio colega Alex Yoong, este a mais de um segundo do tempo de Alonso. Na corrida, o carro quebrou ainda nas primeiras voltas, mas o caminho para voos mais altos já estava traçado. (Assista abaixo ao vídeo da volta rápida de Alonso)



Neste ano, quem parece mostrar um bom aproveitamento da vaga nanica é o francês Jules Bianchi, tirando o máximo da Marussia e cutucando os carros rápidos. Esse é o papel essencial de uma equipe pequena, desde que ela não invista somente em pilotos pagantes.