Pitlane

Para saber que a F-1 segue rápida: o fracasso e a lerdeza da Lola em 1997



Transbordaram as preocupações de, no GP da Autrália agora em março, muitos carros com motor Renault se arrastarem e ficarem bem abaixo do ritmo dos demais concorrente do mundial de Fórmula 1. Já existem berros de que será um mico para a categoria, toda uma tragédia anunciada. A gente avalia que é bobagem, pois na pior das hipóteses teremos carros andando perto de cinco a seis segundos pior que os ponteiros. Querem falar de mico, existe um episódio legendário ocorrido exatamente em Melbourne, mais precisamente em 1997: o caso Lola. Conseguimos até imagens antigas dos carros se arrastando que o leitor pode conferir abaixo.

Eric Broadley se tornou referência nas competições com seus carros de Fórmula Indy, Fórmula 3, Fórmula 3000 e eventuais experimentações na F1, mas jamais estaria pronto para o fracasso aterrador deste projeto. Em 1996 surgiu a proposta de montar um time Lola para estrear em 1998. Um contrato foi assinado com a Mastercard, mas de uma hora para a outra a financeira exigiu que a equipe fosse para a pista já em 1997, o que comprometeu toda a proposta.

O design teve de ser rabiscado pelo próprio Broadley e seus consultores, tendo ficado pronto às vésperas do mundial começar e sem tempo para ir ao túnel de vento. O motor era um Ford Zetec V8 de 1995 e a caixa de câmbio tinha problemas sérios de acoplagem à usina de força. Desembarcaram em Melbourne garganteando que iriam bater a Stewart, também estreante, mas foram para a casa no desespero.

O brasileiro Ricardo Rosset e o francês Vincenzo Sospiri foram contratados às pressas para a estreia e testemunharam um pesadelo dentro do cockpit. O carro da Lola não gerava downforce suficiente para esquentar os pneus, gerando o famos graining e deixando os pilotos no limite do controle. A notícia boa é que, ao mesmo tempo, a aerodinâmica era tão ruim que gerava um arrasto terrível que impedia ir muito além dos 260 km/h nas retas, fora o câmbio que teimava em entrar no ponto morto sozinho. O resultado foram chicanes móveis que se arrastava buscando alguma aderência e atrapalhavam os outros carros nos treinos.

Crédito aos pilotos que, em situação extrema, conseguiram evitar qualquer excursão para fora da pista, mas o resultado para o currículo de cada um deles foi terrível. Jacques Villeneuve cravou a pole-position com 1min29s369, enquanto Rosset registrou abismais 1min42s590 na sua melhor passagem. Sim, mais de treze segundos pior que a pole. Sospiri foi quase heróico, conseguindo no fio da navalha e no limite da sanidade fazer 1min40s972 sem a quarta marcha. Ainda assim, os Lola não conseguiram se aproximar além dos 11 segundos da ponta do grid e ficaram a quase seis segundos da margem de classificação nos 107%.

Os carros chegaram a ser enviados ao Brasil e os pilotos pagaram as próprias passagens para estarem lá. Na chegada ao aeroporto em São Paulo, Rosset viu no jornal sua carta de desempregado: "Mastercard retira patrocínio e Lola se retira da temporada". Pelo menos estava em casa, o coitado do Sospiri ainda precisou pagar a passagem de volta, sem nem pisar em Interlagos!

Assista ao vídeo e repare na borda dos pneus, novinhas sem gerar calor para grudar o carro no asfalto: