Antigo cinema de Cazuza Ferreira sediou a abertura do projeto Memórias de São Francisco de Paula
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Antigo cinema de Cazuza Ferreira sediou a abertura do projeto Memórias de São Francisco de Paula

Evento ocorreu neste sábado

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Evento ocorreu neste sábado


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A estreia do projeto Memórias de São Francisco de Paula, neste sábado, levou 80 pessoas ao interior da imponente casa de madeira de Cazuza Ferreira, que já abrigou um cinema nos anos 50. Metade do público chegou ao Hotel do Campo para participar da Roda de Memória em um ônibus (que saiu da sede do município), após cerca de duas horas de viagem.

Muitos dos participantes vieram de Porto Alegre, como professores, estudantes e o técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE), Rafael Filter Santos da Silva. O projeto Memórias de São Francisco de Paula é uma realização da Prefeitura Municipal de São Francisco de Paula, com recursos do Governo do Estado do Rio Grande do Sul por meio do Pró-cultura RS FAC – Fundo de Apoio à Cultura.

O encontro na tarde ensolarada de sábado durou cerca de duas horas e começou por um Roteiro Guiado pelo hotel. Logo após a visita, os participantes assistiram no antigo cinema ao trailer do filme Os sonhos do menino que plantava árvores de Natal, de Paulo Alécio. A projeção serviu para criar o clima e dar início ao bate-papo sobre o antigo cinema.

A professora de História Cláudia Duarte fez a mediação da Roda de Memória, conversa que possibilitou que a comunidade compartilhasse suas lembranças sobre o lugar. O escritor Batista Bossle abriu os depoimentos contextualizando Cazuza Ferreira. Ele é autor do livro Cazuza Ferreira tem História para Contar (Nova Letra, Blumenau/SC, 2016, 2ª edição), entre outras publicações. Em sua fala, contou sobre a formação do povoado, a inauguração do hotel e a criação do cinema. Bossle destacou que “seu Antônio estava à frente do seu tempo, era simpático e tinha um sorriso largo”.

Grasiela Picoloto de Barros, professora estadual natural de Cazuza, ratificou a importância da valorização e do registro da história oral. Ela lembrou do trabalho final de sua graduação em Licenciatura em História, na Universidade de Caxias do Sul, em dezembro de 2001, que teve como tema “As Metamorfoses do Hotel Avenida”.

Elmo Rossi, frequentador assíduo das sessões de cinema do Serrano, falou da sua grande amizade com Antônio Machado Basso e das festas que faziam, afirmando que ele foi um homem de ideias e ações progressista. Para Rossi, o cinema mudou a vida de Cazuza Ferreira porque a população passou a ter “uma distração diferente, que ensinava”.

A filha mais velha do criador do cinema, Iró Beatriz Basso Gomes, emocionou o público ao recordar a sua relação com o pai e a forma de trabalho no cinema. Ao final, agradeceu: “muito obrigada, meu pai”. A Roda de Memória também propiciou perguntas da plateia.

Mais dois espaços culturais importantes terão atividades na sequência do projeto: o Hotel Cavalinho Branco e o Lago São Bernardo (18 de abril) e o Colégio José de Alencar (30 de maio), que completou 100 anos em 2019. O projeto inclui ainda minidocumentários e livro sobre esses três importantes bens culturais do município serrano.

Memórias de São Francisco de Paula tem como objetivo promover o acesso e a apropriação, pelas pessoas, do patrimônio cultural do município e ainda vai contar muitas histórias. Esta é uma maneira de democratizar o conhecimento sobre os bens materiais e imateriais e estimular a participação de todos nas ações de proteção e conservação do patrimônio.

Cazuza Ferreira

Cazuza Ferreira é o terceiro distrito de São Francisco de Paula, distante 122 quilômetros da sede do município. Com 560 quilômetros quadrados, tem aproximadamente 1.200 habitantes, segundo dados do IBGE de 2010, e hoje vive da pecuária. O nome vem do apelido de José Ferreira de Castilhos, doador de terras para a construção de casas no local em 1.888. É o único local do Rio Grande do Sul onde ocorrem as Cavalhadas, espetáculo com mais de 120 anos, que encena a luta entre mouros e cristãos.


A história do distrito se confunde com a do Hotel Avenida. Em abril de 1949, Antonio Machado Basso compra com o sogro Dorvalino Grillo uma pequena pensão. Lá surge um hotel com acomodação para 60 pessoas. O lugar cresce com a exploração madeireira e o hotel também. Com três andares, abrigava hotelaria, armazém, bazar e cinema, que tomou forma em 1.958 com gerador próprio e exibição de filmes que chegavam pela linha de ônibus com destaque para comédias e bang-bang. O apogeu do hotel se deu entre 1960-1970. Com as serrarias fechando surgiu o problema das quedas de energia, interrompendo as sessões de filmes e a perda de público. Com o nome de Hotel do Campo, a edificação hoje tem um andar a menos, hospeda até 30 pessoas e abriga uma espécie de brique. O cinema já não funciona.