À sombra de um ipê da Praça Getúlio Vargas, em Alegrete, uma pedra expõe a famosa placa em homenagem a Mario Quintana:
Um engano no bronze é um engano eterno.
Mas essa frase é apenas um outro de seus quintanares. Mario assistiu à inauguração da placa, de mãos dadas com sua irmã Marieta, num longínquo entardecer de 1968.
‘Naquela ocasião, a pedido do prefeito Adão Houayek, coube a mim falar em nome de seus conterrâneos. E lembrei a noite de 30 de julho de 1906, quando Alegrete recebeu a visita de Mercúrio.
O mensageiro do Olimpo desceu suavemente na Rua dos Cataventos, diante de uma janela iluminada pelo luar. Espiou para dentro do quarto onde dormia um menino recém-nascido. Os olhinhos azuis claros se abriram de imediato. Mercúrio sorriu, recolheu o bebê e com ele aninhado nos braços retornou ao Olimpo. Júpiter esperava imponente, cercado de muitos deuses. O mensageiro depositou-lhe o bebê aos pés. O deus maior correu o olhar em torno:
- Este menino será um grande entre os homens. Por que caminho o faremos chegar a seu destino?
Marte deu um passo a frente:
- Pelo caminho das armas.
Mercúrio discordou:
- O comércio é o melhor caminho.
Ceres o queria agricultor, Esculápio médico. Mas a palavra final foi de Minerva:
- Ele já nasceu poeta.
Hermes devolveu o bebê à sua cidadezinha, antes que o primeiro galo acordasse a madrugada. E o menino Mario seguiu à risca o seu destino. Durante toda sua vida dedicou-se apenas à poesia. E escreveu nos bares (e nas mansões seculares) alguns dos mais lindos versos da Língua Portuguesa.
Entre eles recordo um dos mais carregados de esperança:
A bomba abriu um grande buraco no telhado/
por onde o céu azul sorri aos sobreviventes.
No dia 5 de maio de 1994, nós, os sobreviventes, mesmo com os olhos marejados de lágrimas, não conseguimos ignorar o céu azul de Porto Alegre.
Para onde, certamente, o nosso Mario já havia partido.