Caderno de Sábado

É isso a fotografia?

Texto de autoria de Alfredo Aquino* reflete sobre fotografia

Imagem de Marcos Magaldi
Imagem de Marcos Magaldi Foto : Marcos Magaldi / Divulgação / CP

Existe um vídeo de Sebastião Salgado circulando nas redes sociais em que ele diz que as imagens feitas pelas pessoas em seus celulares não são fotografias, que não significam Memória e que inevitavelmente se perderão com o tempo, inclusive quando as pessoas trocarem seus celulares por qualquer motivo (ocaso da bateria, caducidade do aparelho, esgotamento do espaço de armazenamento). Existia uma anedota no final do século passado (anos 90) que dizia que os turistas japoneses viam o mundo através de suas câmeras, fotografavam tudo, não desfrutavam de suas viagens e iriam posteriormente ver o documento visual de suas viagens através das imagens reproduzidas. Reconheceriam o sorriso da Monalisa apenas por fotografias, não pelo prazer da experiência de sua presença física dentro do Museu.

Hoje todos nós fotografamos tudo em tempo integral. As reuniões de pessoas, o crescimento das crianças, as festas comemorativas, os pratos de gastronomia, os vestígios remanescentes de um acidente, a tragédia de uma enchente. Tudo isso é a Fotografia, segundo Marcos Magaldi em seus ensaios de reflexão sobre o assunto, publicados em “É isso a Fotografia?” (Edições Ardotempo, 2025). O olhar generoso do fotógrafo inclui a todos no espaço da linguagem imagética, que é uma característica definidora desses novos tempos.

“Nenhuma verdade pétrea” afirma a crítica de Arte Angélica de Moraes sobre os pensamentos expressos nos ensaios de Marcos Magaldi sobre a Fotografia, o que demonstra um posicionamento sofisticado e abrangente do fotógrafo renomado sobre os comportamentos de todos na utilização democrática dos novos equipamentos, ao alcance da população. Novos tempos.

TRAJETÓRIA

O livro “É Isso a Fotografia?” apresenta a trajetória de um fotógrafo icônico do fotojornalismo brasileiro que revolucionou a estética da apresentação e do reforço da credibilidade das notícias através de imagens, com a interpretação autoral e emocional de quem as captava. Qual era o posicionamento da câmara numa manifestação de protesto popular ao tempo da ditadura nas grandes cidades ou numa periferia isolada e carente? Em seu horizonte frontal estavam os manifestantes que protestavam com seus cartazes e seus andrajos esfarrapados ou estava a linha robótica, perfilada e hierárquica de escudos e equipamentos de guerra dos batalhões de Choque? Em que ponto estava o fotógrafo? A imagem revelava uma escolha de posicionamento do fotógrafo para transmitir a notícia e ela carregava consigo uma tensão coerente com os riscos assumidos. Onde se definiam as questões humanas no nascimento de um bebê em condições menos luxuosas de instalações hospitalares ou como fazer um retrato inconfundível de um filósofo de reconhecimento mundial (Michel Foucault)? Todas essas foram questões enfrentadas e resolvidas pelo autor das imagens capturadas e constituíram no seu reconhecimento singular.

ÉPOCA DE OURO

Posteriormente, Marcos Magaldi notabilizou-se na área da publicidade, no auge de sua época de ouro. Com o conhecimento e pesquisa intensa de livros de fotógrafos em várias línguas, com uma biblioteca selecionada e equipamentos de alta tecnologia tornou-se um erudito e especializou-se em solucionar problemas intrincados de luz (flashes temporizados, luz contínua e pincéis de luz), introduzindo no segmento exigente, novidades e avanços tecnológicos. Auxiliou outros fotógrafos profissionais com seus ensinamentos e suas descobertas. Transmitiu os conhecimentos assimilados. Tudo está narrado didaticamente neste livro e ilustrado com seus exemplos de imagens. Um livro bastante útil e eloquente para todos que se interessam por Fotografia. Com a sua curiosidade e disposição em desvendar os obstáculos da tecnologia e da luz, ele certamente cometeu equívocos nas suas experimentações mas disso nunca ninguém soube, restou oculto em seu estúdio e em seu laboratório fotográfico, porque encontrou as soluções adequadas e inovadoras.

De forma divertida, ele diz “magros fotografam moda e glamour; gordos fotografam automóveis e equipamentos pesados”, o que definitivamente, não é verdadeiro porque ele notabilizou-se por campanhas reconhecidas e premiadas nestes segmentos como um herói protagonista cinematográfico de charme, anônimo, de um “Blow Up” (Depois daquele beijo) tropical.

EXPOSIÇÕES RELEVANTES

Igualmente Marcos Magaldi fez algumas exposições relevantes na área da Arte fotográfica em museus e galerias importantes no Brasil. Descobriu um suprimento inovador (chapas de alumínio, sensibilizadas em nitrato de prata, como papel fotográfico), exclusividade de um discreto laboratório situado na rue Condorcet, Montmartre, Paris e criou uma incrível série de stábiles com imagens fotográficas tridimensionais, que fez muito sucesso pela originalidade e qualidade artística. Arcangelo Ianelli, artista consagrado como pintor e escultor, disse certa vez que rótulos em Arte são insignificantes e que apenas o que importa é se a Arte é boa ou má. Se é as obras são ideias originais, se são bem realizadas e se são paradigmáticas (ou ao contrário, serão repetitivas, mal feitas e redundantes). As obras de Marcos Magaldi estão situadas no primeiro grupo, o da excelência da Arte.

SERVIÇO:

O QUÊ: Lançamento do livro “É Isso a Fotografia?”, de Marcos Magaldi.

QUANDO: 17 de junho, às 19h. Conversa de Marcos Magaldi e Gilberto Perin.

ONDE: Bar La Vita eh Bella (rua Dona Leonor, 45), bairro Rio Branco, Porto Alegre.

  • O autor Alfredo Aquino é artista plástico, escritor e editor da Edições Ardotempo.