Sábado. Dia em que, à tarde, vou jogar sinuca com o escultor Xico Stockinger, o fotógrafo Flávio Del Mese e o pintor Nelson Jungbluth. É cedo ainda, quem sabe faço uma visita ao poeta, que não vejo há semanas?
Encontro-o sentado à beira da cama, bem humorado, mas se queixa da sonda vesical e da bolsa coletora presa ao flanco. Conversamos, isto é, ele fala, eu escuto. Não ouve ou finge não ouvir quando a voz não é a dele. Mostra uma pasta, o livro que está preparando para a Editora Tchê, a pedido de Sergio Napp. Quer saber o que penso do título: “Um dia o cavalo vai voltar sozinho” (*). Não espera a resposta e muda de assunto:
– Em quem vais votar pra presidente?
Digo que talvez nem vote, meu título continua em Alegrete.
– E vou votar – garante. – No Brizola.
Na sua idade não precisaria, mas quer fazê-lo, como o cunhado Átila, que aos 99 anos, em cadeira de rodas, foi votar para prefeito em Alegrete. Mas quer votar apenas na eleição presidencial, em outras nem pensar.
– E o plebiscito? – pergunto. – Não vais apoiar D. Pedro?
Ah, o plebiscito, claro, tinha esquecido, e lembra também que sempre foi a favor da monarquia.
– Isabel, traz a foto do rei!
Vem a moça com um painel de fotografias. Comento que sua nova auxiliar tem nome de princesas e rainhas, não me escuta e aponta uma das fotos. Lá está ele a caçoar de alguma coisa e D. Pedro rindo.
– O secretário telefonou, perguntando se a visita podia ser às cinco. Ora, o rei não pede, manda.
Conheço o painel. Há uma foto do poeta entre José Sarney e Ulysses Guimarães. Há fotos de Bruna Lombardi e Dulce Helfer. Numa outra ele comparece em não menos bela companhia: Paulo Mendes Campos, Fausto Cunha, Nélida Piñon, Lara de Lemos e Lygia Fagundes Telles. Noutra ainda, um grupo que inclui Augusto Meyer, Athos Damasceno e Moysés Vellinho. Observo que conheci pessoalmente os dois últimos. Moysés na casa de meu tio, o médico Eduardo Faraco, uma noite dos anos 60 em que vi, assombrado, o autor de “Capitania d’El Rei” despir-se de sua britânica fleugma para defender com fúria procedimentos da junta militar. Damasceno, fui visitá-lo no apartamento da Praça do Portão. Já portador do mal que o mataria, conservava a proverbial elegância no trajar e a verve que lhe fez a fama de conversador espirituoso.
O poeta não presta a mínima atenção e me interrompe para contar uma anedota: moços ainda, ele e Damasceno moravam na rua Duque de Caxias e cada qual se achava o melhor poeta da rua. Um dia reconheceu que o título pertencia ao rival. Quando Damasceno agradeceu e pôs-se a exaltar sua probidade, atalhou: “Acabo de me mudar para a Riachuelo”. Dá uma gargalhada e eu quieto. Não simpatizo com suas piadas repetidas. Uma que outra, vá lá, mas a todo instante não tem graça. Ele arma uma carranca e, como para apagar o pequeno fracasso, grita para o corredor:
– Isabel, traz mais café!
E logo um comentário baixo, ressentido, sinal de que não apagou coisa alguma: “O homem que não ri...”
– Tu também não... quando a piada é alheia.
Finge espanto e trato de lembra-lo. Meu sogro, o poeta Antônio Milano, certa vez o saudou assim: “Mario, filho do excelso Quintana!” Ele reagiu: “Meu pai não era excelso, era um humilde boticário”. E Milano, implacável: “Não se chamava Celso? E não morreu? Então é ex-Celso”.
-- Ficaste de mal com ele.
Fecha a cara outra vez, mas não retruca. Estará pensando no pai e essa lembrança acende outras lembranças, que começa a desfiar com estranha saudade: um misto de afeto e zombaria. Conta que sua mãe perdeu vários filhos, uns logo após o nascimento, outros durante a gravidez, e estes então “morreram nadando”. Agora acho traça, ele também.
– É de família – digo.
– Por quê? – na defensiva.
– Teu bisavô não morreu nadando?
Ah, morreu, e acrescenta:
– Holandês que se preza deve morrer no mar.
Mario de Miranda Quintana, que nunca foi Miranda. Seu bisavô, o holandês Ryter, fazia contrabando de armas durante as guerras da independência do Prata e naufragou no litoral do Rio de Janeiro.
Morreu nadando. Mulheres e crianças se salvaram, inclusive sua bisavó, que estava grávida. No Rio, foi acolhida por um português, Miranda, passando a viver com ele. O filho de Ryter (e futuro avô materno do poeta), ao concluir seus estudos acadêmicos, adotou o nome do padrasto.
Já está na hora em que meus parceiros se reúnem. Antes de me despedir, faço a pergunta que os escritores costumam fazer uns aos outros:
– Tens escrito?
Alcança-me um caderninho, preenchido com letra irregular, quase ilegível. As páginas estão numeradas, em sequência a outros cadernos, e já passam de seiscentas. Como produz tanto, se mal pode mover-se? Pergunto onde está escrevendo. Na cama? Sim, na cama. Recolhe as pernas com dificuldade e vai gemendo e suspirando até recostar-se na cabeceira.
– Me dá aquela pasta.
Coloca-a sobre as ossudas coxas e me olha, um olhar doce que, paradoxalmente, parece ter lampejos de demônio.
– Escrevo assim.
Sinto um frêmito, estou vendo o ferreiro em sua forja. Sem gracejos repisados, sem as habituais tolices, sem o riso metálico e forçado. Não, não sei se é isso. É alguma coisa que não identifico e me arrebata. Magrinho, sem dentes, com aqueles pulmões que a gente sabe, uma sonda na bexiga e sentadinho, com a pasta nas pernas... Quero fixar essa imagem, quero explicá-la, quero traduzi-la e não consigo. Xico, me empresta teu cinzel. Flávio, tua câmara fotográfica. Nelson, teu pincel. E o vejo fechar os olhos e me levanto sem fazer ruído, vou embora antes que os abra, antes que veja nos meus como estou comovido.
(*) O livro foi publicado com outro título, “Velório sem Defunto”.