Caderno de Sábado

2025, Ano Dyonelio Machado

Jornalista e pesquisador José Weis chama a atenção em artigo para a importância das efemérides do autor gaúcho no próximo ano

Escritor e médico gaúcho Dyonelio Machado em cena do filme "Doutor Dyonelio", de Ivan Cardoso, de 1978, quando o autor tinha 83 anos
Escritor e médico gaúcho Dyonelio Machado em cena do filme "Doutor Dyonelio", de Ivan Cardoso, de 1978, quando o autor tinha 83 anos Foto : Super-8 Produções Cinematográficas / Divulgação / CP

Para o ano de 2025, muitas efemérides marcam a vida e obra de Dyonelio Machado (Quaraí, 21 de agosto de 1895 - Porto Alegre, 19 de junho de 1985). O próximo ano marca a passagem dos 130 anos de nascimento do escritor, 90 anos da publicação de “Os Ratos”, em 1935, quando foi vítima de uma prisão arbitrária e ainda os 40 anos da sua morte.

Médico psiquiatra, escritor e militante político, autor de uma obra extensa, com romances que retratam um Brasil nas suas diversas facetas, um escritor que sempre viveu no Sul do País, que inaugurou a narrativa urbana no Rio Grande do Sul, segundo Erico Verissimo.

Porto Alegre, no espaço que ainda não era denominado Centro Histórico, a caminhar pela Avenida Salgado Filho, vinha um senhor, com chapéu e bengala, eu o reconheci. Pensei em abordá-lo, a timidez ou sensatez dos meus 18 anos impediu. Foi a primeira e última vez que vi de perto Dyonelio Machado.

À época, Dyonelio andava envolvido com a recente publicação de “Deuses Econômicos”, que a Editora Garatuja havia lançado numa segunda edição “correta, aumentada e com variantes”, conforma consta na página de rosto da edição. Cerca de dez anos antes, saiu uma desastrosa publicação, com graves erros de impressão e revisão. Isso levou ao autor a fazer um grande esforço para recolher toda a edição. Era uma editora do Rio de Janeiro, os contatos entre o escritor e os responsáveis devem ter sido difíceis no distante ano de 1966. Este período foi um tempo de esquecimento, que tudo a ver com o preconceito e o provincianismo deste rincão do país e que Dyonelio denunciou no conjunto da sua obra literária.

VISIBILIDADE. Este relançamento trouxe o autor de volta à pauta dos jornais e seus suplementos literários, foi um tempo de redescoberta de quem amargava um ostracismo, mesmo assim ele nunca deixou de produzir sua literatura, com o rigor e dedicação e com boa recepção na crítica. Por exemplo, em outubro de 1944, Mário de Andrade escreveu numa carta a Dyonelio; “que impressão estragosamente profunda esse livro me causou, “O Louco do Cati” morde e marca”, em outro trecho, Mário comenta sobre outro livro de Dyonelio; “perfeito como unidade, equilíbrio, concepção, nenhum desperdício”, sobre “Os Ratos”.

Dyonelio foi um guri da fronteira gaúcha com o Uruguai, passou dificuldades na infância, perdeu o pai cedo. Porém, sua mãe garantiu que o piá e seu irmão pudessem seguir nos estudos. Ainda menino, na escola primária, em Quaraí, começou sua relação com as letras criando um jornal, “O Martelo”, que era feito de um jeito original; “montamos uma tipografia, com tipos diferentes do mesmo corpo, o que dava sempre ao jornal um aspecto de mal feito, conforme lembrou Dyonelio numa entrevista.

Na década de 1940, ele foi um dos fundadores do “Tribuna Gaúcha”, veículo do Partido Comunista Brasileiro, pelo qual Dyonelio elegeu-se deputado estadual constituinte, em 1947, um mandato que foi cassado pelo governo Dutra, em 1948. Essa relação de Dyonelio Machado com o jornalismo pode se dizer que veio desde a origem, ele nasceu em agosto de 1895, em outubro, saiu o primeiro número do Correio do Povo.

PERSEGUIÇÃO. Por quase toda a vida, a perseguição e intolerância política e intelectual sempre tentaram cercear a atividade literária de Dyonelio. As editoras as quais confiava seus originais também aprontavam das suas. Quando apenas recusavam-se a publicá-lo ou o faziam, talvez propositalmente, com péssimas revisões e desleixo. Sua escrita revela muitas vezes uma fina ironia, humor delicado, sem jamais ceder a uma linguagem simplificada, ler Dyonelio Machado, às vezes, requer um bom dicionário ao alcance da mão.

Nos seus quase 90 anos vividos houve momentos tão difíceis e que pareciam não ter fim; uma prisão arbitrária, a cassação de direitos políticos e uma desastrosa edição de “Deuses Econômicos”, são exemplos disso.

Tudo começou em 1935, o ano em que foi publicado “Os Ratos”, que Dyonelio escreveu 20 noites, em dezembro do ano anterior e recebeu o Prêmio Machado de Assis. Porém, nem tudo foi reconhecimento, o escritor amargou a condição de se tornar um preso político; “eu inaugurei a Lei de Segurança Nacional, fui o primeiro preso em 1935, na ditadura do Getúlio”, contou Dyonelio em entrevista ao jornal Movimento, em 1975.

Doutor Dyonelio Tubino Machado, médico alienista, trabalhou no Hospital São Pedro de Porto Alegre por mais de 30 anos. Chefe de família, político, o homem dos jornais. Dedicava uma atenção especial aos excluídos, suas complexidades, a partir desses criou muitos de seus personagens, com profundidade e maestria literária. Sua obra também abrange um vínculo com a produção acadêmica e com o jornalismo. Esse último é o objeto de pesquisas de um projeto que aborda exatamente esta relação de Dyonelio com veículos impressos, a sair em 2025.

Incontornável é o trabalho da pesquisadora da obra de Dyonelio Machado da professora e doutora do Instituto de Letras da PUCRS, Maria Zenilda Grawunder. Ela não deixou por menos: “é consenso que Dyonelio Machado foi um grande marginalizado em sua época, proscrito pelas editoras de seu estado; uma das razões teria sido sua atuação política divergente da ideologia predominante na sua época de ascensão como escritor”, descreve no texto de apresentação do seu livro “Instituição Literária – Análise da Legitimação da Obra de Dyonélio Machado”, obra seminal para entender o valor do escritor.

RECONHECIMENTOS. Na maturidade, sempre lúcido e ativo, publicou obras importantes, “Presságios” e “Endiabrados”, esse último recebeu o Prêmio Jabuti de romance, em 1981. Conseguiu consolidar a quadrilogia, iniciada em 1942 com “O Louco do Cati”, somente em 1981, ao lançar “Nuanças”, completou um importante ciclo. Os dois últimos livros publicados em vida, “Fada” e “Ele Veio do Fundão”. Dyonelio faleceu às vésperas de completar noventa anos de vida, em junho de 1985. Deixou para a posteridade “Memórias de Um Pobre Homem” além de livros inéditos que pouco a pouco estão sendo recuperados e editados, esse é o caso de “Proscritos”, lançado em 2014, que por sua vez faz parte de uma trilogia que ainda está por se completar com o aguardado “Terceira Vigília”.

“Os bem vizinhos de Naziazeno Barbosa assistem o “pega” com o leiteiro”. Como se escreveria isso em francês? Existe uma tradução do seu livro mais conhecido, “Os Ratos” saiu como L”Argent du laitier, de Alice Polillard, com críticas favoráveis no Le Monde.

Dyonelio partiu sem saber que receberia esta comenda francesa “Orde des Arts et Lettres”, a notícia chegou cinco dias depois do seu falecimento. A honraria foi entregue à viúva, Adalgiza Machado, em dezembro de 1995, em cerimônia oficial no Consulado Francês de Porto Alegre. Dyonelio faleceu no dia 19 de junho, aos 89 anos, completaria 90 em 21 de agosto.

REFERÊNCIAS

ACERVO LITERÁRIO DE DYONELIO MACHADO - DELFOS PUCRS.

DUARTE, José Bacchieri – Os Dez Dias em que o Rio Grande do Sul Foi Parlamentarista, Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Suul.2003.

GRAWUNDER, M. Z. - (Org.) Dyonelio Machado: O cheiro de coisa viva: entrevistas, reflexões dispersas e um romance inédito: O Estadista. Rio de Janeiro: Graphia, 1995).

_____. Instituição literária: análise da legitimação da obra de Dyonelio Machado. Porto Alegre: IEL, 1997. 158 p.

MACHADO, Dyonelio - O Louco do Cati, Editora Planeta, São Paulo, 2003