Caderno de Sábado

A caminhada como mote para a criação

O crítico e historiador de arte, Eduardo Veras, analisa a obra do artista Carusto Camargo que está com a exposição “No vazio do passo”, em cartaz no Centro Cultural da Ufrgs, da qual o crítico é o curador

Obra "Fotomecânica", de Carusto Camargo, que integra a mostra "No Vazio do Passo" que está em cartaz no Centro Cultural da Ufrgs até 19 de junho
Obra "Fotomecânica", de Carusto Camargo, que integra a mostra "No Vazio do Passo" que está em cartaz no Centro Cultural da Ufrgs até 19 de junho Foto : Carusto Camargo / Reprodução / CP

Caminhar – propõe o arquiteto italiano Francesco Careri – é uma formulação simbólica que, de alguma forma, nos permite habitar o mundo. O gesto de colocar um pé na frente do outro, por mais banal que pareça, altera os significados possíveis dos espaços percorridos. A caminhada, segundo essa acepção, corresponde a uma prática estética capaz de ordenar o caos e construir novas paisagens.

Parece que algo desse tipo acompanha o artista visual Carlos Augusto Camargo, o Carusto Camargo, em seus deslocamentos cotidianos. As imagens que ele reúne na exposição No vazio do passo, na Sala Nogueira, no Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), no Campus Central da universidade, em Porto Alegre, reportam-se de diferentes maneiras ao movimento de atravessar o espaço – e atravessar o tempo, junto com o espaço. Há referências sobre o trânsito entre uma cidade e outra (de São Paulo, onde ele nasceu, a São Carlos, onde se criou, de São Carlos a Campinas, de Campinas a Porto Alegre). Há o que se descobre no caminho e também aquilo que aparentemente se perde. Aparece, ainda, o que se visitou nas férias, o que se percebeu no trajeto de casa para o trabalho, e inclusive o que estava lá e nem se viu.

Professor titular de cerâmica no Instituto de Artes da Ufrgs, reconhecido pelo seu trabalho com a modelagem e a queima de argila, o paulistano Carusto transita dessa vez pela fotografia, mas sem se afastar em demasiado do barro: cenas captadas pela câmera, a partir de diferentes modos de deambulação pelas cidades, são transferidas para folhas de acetato transparente. As folhas, por sua vez, justapostas a azulejos emulsionados e expostas à luz, retransmitem as imagens. Por vezes, encontram as linhas tracejadas de antigos guia de corte e costura, emulando uma insuspeitada cartografia. Para a fixação final, as peças voltam ao forno. O fotográfico adere à superfície dos azulejos.

O interesse e o gosto pela fotografia, no caso de Carusto, são herança doméstica, repassada pelo pai e pelo avô – os dois viviam às voltas com câmeras e laboratórios e, por pouco, não se profissionalizaram no metiê. Um dos filhos do ceramista também trabalha com fotografia, mas, na exposição No vazio do passo, ele comparece sobretudo como modelo, é motivo, referência, posando sobre um rochedo na praia de Cabo Polônio, no Uruguai.

Em outra série, proveniente das caminhadas pela urbe, Carusto dá atenção a carrinhos de coleta de lixo seco – o artista resiste aos impulsos de exotizar ou romantizar a atividade urbana. Antes, quer saber o que o olhar dos outros percebe que ele não é capaz de notar, o que sobrevive e o que ganha uma segunda chance a partir dos descartes do consumo ordinário. Noutra sequência, o artista faz fotografias cegas: dispara a câmera meio por acaso, guiado pela intuição, sem conferir o que aparecia no visor.

Como contraponto a essa imagens que provêm de andanças, Carusto apresenta uma pequena série de naturezas-mortas, realizadas aos tempos da pandemia de Covid e da necessidade de isolamento social. O que faz o andarilho quando caminhar pela rua deixa de ser uma forma de habitar o mundo? É o momento da viagem ao redor de seu quarto (ou da sala, ou da cozinha), arranjando os restos do correr dos dias: um brinquedo, um vaso, alguma louça.

Completam a exposição uma fotografia em que pequeníssimos tocos de madeira, recolhidos na praia, vêm posar hieráticos, solenes, quase feito totens, ao lado de um macaquinho de borracha. A cerâmica não deixa de comparecer em sua versão escultórica. São quatro peças esmaltadas, de feição abstrata, mas sem deixar de evocar a paisagem de Morro Alto, em Maquiné, Litoral Norte do Rio Grande do Sul. Bojudas feito urnas, as formas de repente se espicham para o alto.

A ambição do artista, em todos esses diferentes casos, parece que é, a cada passo, preencher e retomar os vazios do próprio espírito e os do mundo, num processo continuado de atravessamento de espaços, ordenamento do caos e construção de imagens.

A exposição “No vazio do passo” pode ser visitada de segundas a sextas, das 9h às 19h, sempre com entrada franca, até o dia 19 de junho de 2025. Na segunda-feira passada, dia 26, Carusto falou sobre seu processo criativo em conversa com este curador.

SERVIÇO

  • O QUÊ: Exposição: No vazio do passo. Exposição de Carusto Camargo. Curador da mostra: Eduardo Veras
  • QUANDO: Abertura foi realizada em 5 de maio de 2025, segunda-feira, 19h. Visitação: até 19 de junho de 2025, de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h.
  • ONDE: Sala Nogueira – Centro Cultural da Universidade Federal da Ufrgs | Rua Engenheiro Luiz Englert, 333, Campus Centro da Ufrgs, em Porto Alegre/RS
  • QUANTO: Entrada gratuita