Caderno de Sábado

A Escolha de Heindrich e nós

O jornalista e escritor Salus Loch conta um pouco a história de Hannah Charlier, a personagem sobrevivente real do seu livro “Pitzi – A Testemunha de Pano”

Hannah Charlier, com a boneca Pitzi, e Heindrich, no Mosteiro Jesuíta onde Hannah foi criada, na Bélgica
Hannah Charlier, com a boneca Pitzi, e Heindrich, no Mosteiro Jesuíta onde Hannah foi criada, na Bélgica Foto : Arquivo Pessoal de Hannah Charlier / Divulgação / CP

O que resta de uma pessoa quando o Estado decide sequestrar sua alma?

Heindrich, soldado alemão que resgatou a pequena Hannah Charlier de uma estrutura do exército nazista nas proximidades de Charleroi, na Bélgica, em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, ajuda a encontrar caminhos para que seja possível responder a essa pergunta. Ou, ao menos, refletir a respeito dela.

Conforme narrado no recém-lançado “Pitzi: A testemunha de pano” (Scriptum, 2026), Heindrich era um oficial da Wehrmacht, responsável por conduzir a perseguição e o eventual fuzilamento de “inimigos do Reich”. Alguém que, ao passar pela Juventude Hitlerista, foi lapidado por um sistema que visava converter crianças em engrenagens de uma máquina de extermínio.

Ao salvar Hannah, uma bebê de dois meses amarrada às costas da mãe assassinada pelos nazistas, Heindrich não apenas preservou uma vida, mas – depois de ser cúmplice e perpetrador de crimes brutais – realizou um ato de insurreição contra a própria biografia. Ele foi contra os ditames do governo liderado por Adolf Hitler, que preconizava: todos devem servir e trabalhar em direção ao Führer (a quem ele prestou juramento, a exemplo dos demais militares).

ROMPIMENTO COM

O AUTOMATISMO

A trajetória de Heindrich é o avesso da "banalidade do mal" descrita por Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém. Enquanto, sob o entendimento de Arendt, Adolf Eichmann se escondia atrás da burocracia e da obediência cega, alegando ser apenas um cumpridor de ordens incapaz de pensar, Heindrich rompeu o automatismo.

Sob o prisma de Hannah Arendt, o mal se torna banal quando o indivíduo abdica da sua capacidade de julgar. Heindrich, contudo, recuperou essa capacidade no instante em que olhou para Hannah Charlier, o bebê.

Analisando a trajetória do oficial alemão, abre-se uma fresta para tentar compreender sua atitude. Heindrich, levado à força para compor a Juventude Hitlerista, foi arrancado de casa em 1933, sob os gritos de sua mãe, golpeada enquanto suplicava para que os soldados não levassem seu filho: “a única coisa que lhe restava”. Esse trauma original, a memória da violência sofrida, criou uma fissura na doutrinação nazista.

EDUCAÇÃO APÓS AUSCHWITZ E O DESPERTAR

Theodor Adorno, em seu ensaio Educação após Auschwitz, afirma que a exigência primeira de toda educação é que Auschwitz não se repita. Para Adorno, o nazismo prosperou ao transformar homens em "coisas", eliminando a autonomia e a capacidade de autorreflexão.

Heindrich passou por esse processo: foi doutrinado para ser um soldado racista, preparado para o sacrifício e para a negação da alteridade. No entanto, o paradoxo de sua ação reside no fato de que a educação para a barbárie não conseguiu extinguir o que Adorno chama de "consciência da dor". Ao ver a órfã Hannah, Heindrich não viu um "parasita", como lhe ensinaram nas salas de aula, mas o reflexo de sua própria vulnerabilidade.

Essa discussão sobre a escolha individual e a resistência à desumanização foi um dos temas centrais abordados no domingo, 21 de junho, no Multipalco Eva Sopher, em Porto Alegre, durante evento de lançamento do livro Pitzi, que contou com a presença da própria Hannah Charlier. Hoje, aos 82 anos, Hannah é prova cabal de que o destino não é uma sentença “fechada”. Vivendo no Brasil desde os 10 anos, ela aprendeu a converter suas cicatrizes em um legado de dignidade. Sua história, mostra que onde o mundo oferecia o vazio, mãos corajosas, como as de Heindrich, o nazista arrependido, e da justa entre as nações, Yvonne Nèvejean, são capazes de tecer laços de afeto.

DA RALÉ À MASSA:

O PERIGO DA PERDA DO EU

Neste ponto, a trajetória de Heindrich nos obriga a revisitar Hannah Arendt sob um prisma que ecoa com uma atualidade desconcertante: a distinção entre a "ralé", a "massa" e o "povo". Para a filósofa, a ralé não é uma classe social, mas o resíduo de todas elas; são os indivíduos que, movidos pelo niilismo e por um profundo desejo de destruição, tornam-se os primeiros a abraçar a violência como linguagem, clamando por um “líder”. Já a massa é o terreno fértil onde o totalitarismo planta suas sementes. Ela é formada por indivíduos atomizados, solitários e desprovidos de laços comunitários significativos, pessoas que, ao perderem o sentido de pertencimento, tornam-se presas fáceis para propagandas que oferecem uma identidade coletiva; ainda que fictícia.

Heindrich foi sistematicamente treinado para ser massa. O regime nazista, totalitário e extremado, buscou anular sua individualidade para fundi-la na "coletividade ariana", transformando-o no que Arendt chama de "homem-massa": aquele que abdica do pensamento próprio em favor da engrenagem. Contudo, no instante em que ele estende os braços para Hannah, ocorre uma ruptura metafísica. Ao escolher a proteção da vida em vez da destruição, Heindrich deixa de ser massa e (re)torna à categoria de povo – entendido aqui não como uma multidão uniforme, mas como um corpo de cidadãos capazes de ação política e, sobretudo, de julgamento moral independente.

Ele provou que, embora a ralé possa ditar as regras e a massa possa segui-las, ela jamais consegue silenciar totalmente o "humano" que habita o âmago da consciência. Sua escolha é o lembrete de que a obediência cega é uma renúncia à própria existência.

A humanidade, afinal, é uma decisão que tomamos a cada momento.

SEMPRE TEMOS ESCOLHAS:

O OUTRO NÃO É OBJETO

As histórias de Hannah e de Heindrich ensinam que a resistência começa na recusa em ver o outro como um objeto.

Sempre temos escolha.

Para aprofundar essa reflexão sobre os limites do que é humanamente possível, convido a todos para a abertura da exposição "SHOÁ - Como foi humanamente possível", no dia 20 de julho, no Instituto Cultural Judaico Marc Chagall, em Porto Alegre, numa parceria entre o Chagall, o Yad Vashem (Memorial do Holocausto de Israel) e o Museu do Holocausto de Curitiba.

Estarei presente na abertura proferindo uma palestra sobre como Hitler chegou ao poder, analisando os mecanismos que transformaram cidadãos comuns em massa de manobra e como, mesmo nas sombras mais densas, a luz da escolha individual pode brilhar.

Que a trajetória de Hannah e a “redenção” de Heindrich sirvam de bússola para nunca permitirmos que a indiferença vença o respeito ao próximo, a empatia e o amor.

VOCÊ SABIA?

O livro Pitzi: A testemunha de pano é narrado pela boneca Pitzi, fiel companheira de Hannah ao longo de décadas. A obra transcende o relato das mazelas do Holocausto para refletir a respeito do que resta de nós quando a guerra “dos homens” silencia.