A Feira e a Festa

A Feira e a Festa

Gérson Werlang*

Encerramento da Feira no dia 14 de maio foi com a Orquestra Vicente Palotti, no Theatro Treze de Maio

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"Eu nada entendo da questão social/ Eu faço parte dela, simplesmente..."

Mario Quintana, "A rua dos cataventos".

Em maio foi realizada a 49ª edição da Feira do Livro de Santa Maria. Ao final, o saldo foi excelente, com quase trinta mil livros vendidos, um alento depois dos dois anos da pandemia que nos afetou a todos tão duramente. Os versos acima, de Mario Quintana, que fazem parte de seu primeiro livro, “A Rua dos Cataventos”, de 1940, descrevem bem minha relação com a Feira do Livro de Santa Maria. Eu faço parte dela muito antes de entendê-la racionalmente, o que talvez caracterize as relações mais intensas do ser humano, aquelas em que a afetividade se sobrepõe a outras dimensões da existência. 

Frequento a Feira desde o início da adolescência e em anos seguidos, no mês de maio, costumava perambular por suas bancas, catando livros, respirando o ar insubstituível daquilo que traduz a proximidade de uma descoberta, de encontrar aquele livro do autor que é um velho amigo de outras leituras e também de encontrar autores em carne e osso, amigos que não víamos há tempos, num vagar descompromissado em um espaço tantas vezes abandonado: a praça central da cidade. (Uma feira na praça central exala um sentimento essencialmente popular, de festa medieval, e isso é algo que não deveria ser esquecido).

A Feira do Livro de Santa Maria é, hoje, a segunda mais importante do estado, perdendo apenas para a de Porto Alegre. É, também, a segunda mais antiga da América Latina, ganhando até mesmo da tradicional Feira de Buenos Aires. 

Eu gosto muito de feiras de livro. No Rio Grande do Sul, há certo número delas, de variados tamanhos; desde as grandes, como a de Porto Alegre, até feiras realizadas em pequenas cidades do interior e às vezes ainda menores, feitas dentro de escolas e outros espaços que não a praça central ou um espaço público da cidade. Tenho frequentado algumas delas, mais recentemente, para lançar meus livros. Estive, no ano passado, na Feira do Livro de Horizontina, no noroeste do estado, e fiquei agradavelmente surpreso tanto pela organização quanto pela beleza singela da cidade, que eu não visitava desde a infância. As feiras do livro, como todas as outras iniciativas onde o livro, a arte e a literatura estão presentes, são o que pode nos salvar das trevas nesses tempos obscuros e são muito bem-vindas. 

Nesse rol de lembranças, a primeira feira que eu tive a chance de participar foi a da minha cidade do coração, onde fui morar no fim da infância: Santa Maria. Ali, muito cedo, em minha pré-adolescência, já apaixonado por livros e por música, perambulava entre as bancas, procurando ofertas, procurando autores de que gostava, respirando o ar da cidade. Eu era tomado quase que por uma febre, uma felicidade plena de direitos: estar na praça, sentindo o pulso do tempo, o frio tranquilo do início de outono, a leitura em pé na frente das bancas, uma ou várias descobertas literárias, depois a quietude da noite que caía enquanto eu caminhava para casa em direção ao bairro em que morava. Esse caminhar entre os livros expostos traduz um momento primordial: respirar, percorrer caminhos, flanar pela cidade, experiência que se refaz nesses momentos, dos quais uma feira do livro pode ser parte fundamental. A literatura em sua face também física, o toque na capa dos livros, o aroma do café bebido em meio aos passantes, misturando-se aos outros cheiros do ambiente.

A Feira do Livro de Santa Maria teve em 2022 a sua 49ª edição. A primeira edição ocorreu em 1973, promovida por acadêmicos de Comunicação Social da Universidade Federal de Santa Maria, e nunca parou de crescer. Ao chegar a sua 49ª edição, além da significativa venda de livros, teve a presença de escritores, espetáculos de teatro e música. Mais de cem livros foram lançados. No campo editorial, duas editoras se destacaram, a Editora da UFSM, com 11 lançamentos, e uma pequena editora independente, a Memorabilia, com o mesmo heroico número de novidades, todos na área de literatura. 

A Feira teve, este ano, uma patronesse, a escritora Nikelen Witter, autora de obras como Viajantes do Abismo, romance indicado ao Jabuti em 2021, e Dezessete Mortos, livro de contos ganhador do Açorianos de Literatura. Nikelen não é a primeira mulher a ser patronesse da Feira, mas certamente é a primeira autora de literatura steampunk a ocupar tal posição, e sua atuação por esses dias foi, com seu talento e simpatia, mais um atrativo dentro do caldeirão cultural que são as duas semanas de movimentação literária.

Para além da Feira do Livro de Santa Maria, há quatro anos a cidade ganhou outro evento literário, complementar e contrastante, a Festa Literária de Santa Maria, carinhosamente apelidada de Flism. A proposta da Festa é um pouco diferente da Feira, e está associada a eventos do gênero existentes no Brasil, como a Flip, realizada em Parati, no estado do Rio de Janeiro, a Fliaraxá, em Araxá, a Flipoços em Poços e Caldas, entre outras. Sua proposta é de conversas sobre literatura numa convivência realmente festiva, onde o que está em primeiro plano são as discussões sobre as obras dos autores, além de encontros com os mesmos. Já estiveram na Flism: Ignácio de Loyola Brandão, Luiz Ruffato, Cristóvão Tezza, Milton Hatoum, a escritora portuguesa Lídia Jorge, Elaine Alves Cruz, entre vários outros. Neste ano, a Flism ocorrerá em setembro, retornando à data usual de antes da pandemia. Creio que ambas, Feira e Festa, se complementam. Uma, a Feira, tem longa história. A outra, a Festa, ainda é jovem, mas já mostra a que veio. 

Ano que vem a Feira do Livro fará 50 anos e deve crescer ainda mais. Espera-se que os danos da pandemia se reduzam gradualmente e que as pessoas, sempre, leiam mais e melhor. A literatura está aí para nos proporcionar caminhos para escaparmos da ignorância, dos extremismos, da violência, dos fanatismos, dos negacionismos. Pode por mundos no mundo, recriar nossas vidas em outras vidas, rever nossas rotinas. Santa Maria, no coração do estado, tenta fazer sua parte. 

*Músico e escritor. Professor do Departamento de Música e da PPG em Letras da UFSM.



Correio do Povo
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