Há alguns meses, recebi imagens de jornais da década de 30, período do Estado Novo, quando meu pai administrou a Prefeitura Municipal do município de Encantado/RS.
Ao mesmo tempo em que achei engraçado – e talvez não devesse – minha memória cruzou dados e penetrei nos ciclos que se repetem. Aprendi que a idoneidade é um bem precioso. Se a perdemos, não há mais como recuperá-la.
A leitura que fiz – e que me possibilitou ampliar minha pesquisa histórica – me diz da fragilidade humana, do poder e do quanto isso serve desde sempre. Lembrei-me dos mandamentos, do iluminismo, de Gutenberg, das ditaduras e, então, a martelada: as fake news eram as calúnias utilizadas para manipular a sociedade, ganhar guerras. Ou Hitler não teria invadido a Polônia utilizando um blefe.
O poder e a comunicação sempre andaram juntos. Ora de um lado, ora de outro, o que mudou é apenas a forma e a técnica – que hoje não é mais oral ou impressa. O que me fez rir naquela noite ao receber as imagens do jornal de época, que pareciam tão atuais?
Em outubro de 1937, circulou um panfleto produzido em um tipógrafo que acusava o prefeito municipal de implantar uma “DICTADURA ENCANTADENSE”. O referido papel tentava vincular o trabalho de meu pai na gestão pública a ações do presidente de então, Getúlio Vargas, que implantou o Estado Novo.
Com as provas em mãos, Zeferino Demétrio Costi fez denúncia de crime. A colônia italiana se manifestou em um de seus jornais exigindo justiça e, no mês seguinte, o criminoso foi obrigado a se retratar e pediu desculpas na frente do Juiz, do Promotor Público e do seu Defensor em uma audiência pública. Meu pai não compareceu à audiência, pediu a um primo que o representasse, não gostava de teatro político.
Naquele mesmo ano, pouco depois, Getúlio proibiu que os italianos se comunicassem em tailan e a imprensa – tipografias espalhadas pelo país, foram todas destruídas e a língua estrangeira foi proibida em todo o país.
Talvez tenha sido neste momento em que meu pai introjetou a frase: o silêncio é de ouro.
Revejo sua testa franzida, o olhar cansado, o silêncio exigido para que pudesse ouvir as notícias e o desânimo dos ciclos que se repetem, que passam geração após geração carregando mesmas dores, mortes e negociatas escancaradas.
E usando uma frase já carregada de antiguidade, aqui com meus botões, eu tinha esperança de que o mundo aprendesse com a pandemia. O homem não muda, o problema é que cada vez mais se empoderam os sociopatas.