Caderno de Sábado

A importância da literatura de entretenimento

O escritor, tradutor e doutor em Letras, Rafael Bassi, analisa a obra “Jogos Imperfeitos”, do premiado escritor porto-alegrense Tailor Diniz

Tailor Diniz autografa o seu novo livro, "Jogos Imperfeitos", neste sábado, às 18h, no Terezas Café, em Porto Alegre
Tailor Diniz autografa o seu novo livro, "Jogos Imperfeitos", neste sábado, às 18h, no Terezas Café, em Porto Alegre Foto : Acervo Pessoal / Divulgação / CP

Data dos anos 1980 um texto do ensaísta José Paulo Paes sobre a necessidade de criarmos uma literatura de entretenimento no Brasil que ficou bastante famoso no meio intelectual. Nele, Paes afirma que devemos perceber a importância de um tipo de escrita que nos permitisse uma “sedução do livro”, para que, após sua leitura, algo em nós permanecesse. Mais do que isso: Paes também demonstra, em seu texto, que temos uma longa trajetória de autores que queriam contar histórias, as quais faziam sucesso com o público, que parte em busca de algo para se divertir em seu tempo livre.

Eu, após quarenta anos que se passaram desde o tempo do texto de Paes, prefiro encarar essa tal literatura de entretenimento não apenas como uma mera diversão, pois acredito que o problema nosso é maior porque somos um país de não leitores no geral. Assim sendo, há, além de tudo, uma função social imprescindível na literatura de entretenimento, que é fazer – numa luta de Davi contra Golias – as pessoas preferirem se aventurar em uma leitura a gastar seu tempo percorrendo as redes sociais com vídeos curtos ou fotos chamativas. Dessa maneira, faz-se cada vez mais necessária uma escrita que abra as portas da leitura para aqueles que não estão acostumados a ela.

O gênero policial, com suas estruturas que captam a atenção dos leitores na trama que foi construída, me parece um bom caminho para que as pessoas peguem um texto e não o larguem, porque há sempre um mistério a ser desvendado e um final a ser buscado para a realização pessoal da conclusão da leitura.

Assim, acredito que temos entre nós um mestre deste gênero, que é Tailor Diniz. Com seu histórico de mais de 20 livros publicados, uma carreira bastante consolidada e reconhecida no ambiente literário, Tailor nos brinda novamente com uma obra de fôlego. “Jogos imperfeitos” (Casa de Astérion, 2024) é mais um romance que nos prende do início ao fim. Com um ritmo alucinante, trazendo todos os elementos clássicos do thriller policialesco, vemos Tiarles Viga, um jogador que passa por grandes dificuldades pessoais (a doença do filho e do pai e a necessidade de dinheiro para tratamentos extremamente caros), abordado por uma empresa de Bets para que cometa um pênalti após os 40 minutos do segundo tempo em troca de uma bela quantia de grana. No entanto, o jogo se paralisa, e a bola não vem até a área para que ele realize a falta e cumpra o acordo. E é esse não cumprimento que faz com que a sua vida passe por uma reviravolta sem precedentes, na qual ele será perseguido pelos novos mafiosos dos sites de apostas desportivas.

Mas não é só isso, porque me parece que o mais interessante do enredo é a participação dos jornalistas que estão em conluio com as Bets, recebendo dinheiro delas para falar sobre as apostas e, também, fazer suas próprias projeções nos programas com o intuito de chamar os espectadores a também realizarem o seu “regozijo” nos jogos. Para eles, em sua propaganda, apostar não mais é do que um divertimento ao alcance de todos que, além disso, ainda pode render um dinheirinho extra.

É nesse ponto que Tailor nos surpreende literariamente ao construir uma trama muito bem arquitetada, com uma fluidez do texto que vai nos causando emoções diversas, sendo a maior delas o interesse para que cheguemos até o fim, descobrindo o final dessa encrenca em que o jogador se meteu. Isso não me surpreende, porque, novamente, acredito que Tailor Diniz seja entre nós um dos escritores com maior habilidade de construção de narrativas que nos deixem vidrados no texto, apreensivos e com o desejo de descobrir o desfecho. Justamente por isso, não pude largar seu livro e o li de uma só vez, abdicando de algumas horas de sono para saber o que iria acontecer com cada um dos personagens em destaque.

Quero, agora, voltar à discussão inicial, em que falávamos da literatura de entretenimento. O prêmio Jabuti, em 2020, criou a categoria de “romance de entretenimento”, que gerou – e gera ainda – discussões acaloradas sobre o assunto, porque, segundo a premiação, há uma distinção entre o “entretenimento” e o “romance literário”. O próprio Tailor Diniz foi finalista neste ano de 2024 com seu livro “Os canibais da rua do Arvoredo” (Lucens, 2023), em que traz para a atualidade o célebre caso do casal de moradores da capital gaúcha que, no século XIX, fazia linguiça com carne de pessoas que eles assassinavam. Para quem não leu, eis outro livro fundamental da trajetória de Tailor.

Acho que é um bom momento para que eu possa dar aqui também algum pitaco sobre o assunto. É interessante a criação desta categoria, no sentido que o tipo de romance que é considerado para a categoria talvez não chegasse a essa lista final caso não houvesse essa distinção. Contudo, se partirmos de um pressuposto de que o “romance literário” é uma literatura que trata de grandes temas enquanto que o de entretenimento, não, caímos em um erro. Explico: os romances que aparecem na lista de entretenimento trazem, em si, grandes problemas atuais que são discutidos de maneira interessantíssima. Lembro sempre a explicação que Ricardo Piglia dera para a composição dos contos de Jorge Luis Borges, que sempre usava um gênero literário como história aparente para discutir um tema humano fundamental como história subliminar. Reafirmo que, para mim, nossos romances de entretenimento contemporâneos têm o mesmo poder. Eles, a partir de estruturas narrativas que captam a atenção do leitor com as mais variadas estratégias literárias, trazem por trás os grandes temas que estão ao nosso redor. Assim, seria ingênuo pensar que uma literatura de entretenimento hoje não fosse altamente reflexiva e crítica.

Nesse ponto, acredito que o tema que perpassa a história de Tiarles Viga seja outro ganho importante de “Jogos imperfeitos”, porque estamos inundando-nos em propagandas de Bets, quando abrimos nossos celulares e computadores ou quando ligamos as televisões. Assim, com aquele aparente enredo policialesco – clássico, que, novamente, Tailor domina como poucos! –, as discussões que nos são colocadas estão intimamente ligadas à sociedade brasileira destes últimos anos, nos quais os conluios entre jogadores e Bets ou jornalistas e Bets são muito bem arquitetados e demonstrados na narrativa de Tailor Diniz. Assim, o livro, além de nos prender em sua leitura, também nos causa um certo desconforto, propiciado por uma literatura de grande qualidade, que gera reconhecimento e verossimilhança por parte dos leitores. Em outras palavras, além de nos divertir (literariamente), o enredo nos faz ver o mundo em que vivemos.

FICHA TÉCNICA

Livro: “Jogos Imperfeitos”

Autor: Tailor Diniz

Editora: Casa de Astérion

Páginas: 208

Ano: 2024

Formato: 14x21cm

O novo livro de Tailor Diniz, finalista do Prêmio Jabuti 2024, é "Jogos imperfeitos', com 208 páginas, lançado pela editora Casa de Astérion | Foto: Casa de Astérion / Divulgação / CP