Caderno de Sábado

A Linha d’Água é a linha da memória

Poeta, ensaísta e tradutor José Eduardo Degrazia resenha o livro do escritor gaúcho Sidnei Schneider

Sidnei Schneider lançou em agosto o livro "À linha d’água do rio" pela Pubblicato Editora
Sidnei Schneider lançou em agosto o livro "À linha d’água do rio" pela Pubblicato Editora Foto : Ana Cristina Gonzalez / Divulgação / CP

O Rio Grande do Sul teve desde muito cedo autores que se dedicaram ao gênero miniconto, ou, se preferirem ao subgênero miniconto. Devido à proximidade com os países de língua espanhola, os autores fundadores como Arreola, Monterroso, Piñera, entre outros, trafegavam entre os nossos leitores cultos. Desde o final dos anos 60 e início dos 70, escritores ensaiaram o miniconto nos cadernos literários de nossos jornais. Alguns se tornaram costumeiros no manejo da forma, como Jorge Rein, Leonardo Brasiliense, Laís Chaffe, Marcelo Spalding, Roberto Schmitt-Prym, Paulo Betancur, e este que aqui escreve. Une-se ao grupo o poeta e escritor Sidnei Schneider, com o livro de contos e minicontos, “À linha d’água do rio”.

O minicontista Sidnei se manifesta no texto primoroso que dá título ao livro: Flúmen, que significa rio. Alguém, de nome Krom, leva um bebê ao fluxo de um rio. Não ficamos sabendo – aí a maestria do narrador –, se se trata de um sacrifício, de um batizado, ou de um simples banho na criança. O bebê sorri segurando a barba de Krom, sem saber qual o seu destino. Assim como nós não sabemos do nosso destino nas águas do rio da vida. Penso que este miniconto abre portas para a compreensão dos outros. Nós, leitores, vemos aquela criança à tona d’água, e queremos salvá-la. Ou acreditamos no autor de que está nos propondo um ritual de passagem.

No miniconto “O boné de Levi” o rito de passagem fica evidente, o personagem Levi, tendo colocado um boné na cabeça “apenas para ajeitar os cabelos” é traduzido/confundido com identificadores ideológicos, e sentimentos, que ele nem tinha pensado no singelo ato de cobrir os cabelos com um boné. Esta é uma das características do miniconto, a possibilidade de múltiplas leituras, em sendo um gênero breve e aberto à interpretação do leitor. O leitor deve preencher o que foi sugerido pelo autor, com a sua própria imaginação. Por ser um gênero híbrido entre o conto e o poema, o miniconto deve sempre deixar a ressonância do narrado vibrar no leitor que o interpreta e sente.

Outra característica do autor é sua vertente social, ligada aos pobres deste mundo. No miniconto “Semáforo”, um papeleiro enfrenta a massa de automóveis indiferentes à sua condição. No texto “Parada de ônibus” é um sem-teto que vive embaixo de um viaduto e mostra ao mundo, nos dizeres de sua camiseta, todos desencontros. Exemplo de denúncia social é Prezado condômino, onde numa comunicação fria e burocrática aos condôminos, fica evidente a falta de empatia com os miseráveis.

O tamanho do miniconto é matéria discutida, podendo variar de algumas linhas a uma página, página e meia. Dentro desses limites, a maior parte das prosas do livro podem se denominar de minicontos, pois têm muitos dos predicados do gênero, como a concisão, a abertura plurissignificativa, a narração de uma história com poucos personagens – em geral sem nome –, ter espaço e tempo sem contextualização, o hibridismo com o conto, o poema e a crônica. Nalguns textos um pouco mais extensos, como por exemplo, “Jaburu”, o parentesco com a crônica é mais patente, pois o leitor pode se identificar com os personagens e a paisagem, como eu me identifiquei com a Santa Maria onde vivi parte da minha infância: ali está o Internacional time da cidade para que eu também torcia, a Vila das latas, os personagens folclóricos. Talvez, o personagem Neguim seja o mesmo menino que descrevi subindo a avenida Ipiranga desde a Vila, atirando pedras certeiras que faziam com que a gurizada se dispersasse rapidamente, e, só ele, assim, seguia altaneiro pela avenida. Ah, o meu miniconto chama-se “A trajetória da pedra”, e está no livro “A colecionadora de corujinhas”, de 2016. Fiquei emocionado ao ler o conto/crônica do Sidnei, por me trazer imagens da minha infância na velha Santa Maria da Boca do Monte. Também me lembrei das minhas viagens pelo Peru e pela Bolívia, no miniconto Ligadíssimas. Também viajei naqueles ônibus atravessando os Andes, também conversei com aquelas Cholas.

Não deve ser uma preocupação para o autor pensar suas prosas como miniconto, poema em prosa, conto. Muito menos importa para o leitor – desde que intua que tudo faz parte de um mesmo universo de memória que só pode se manifestar através desse novo gênero híbrido e volátil que estamos tratando. Um gênero volátil, mas nunca volúvel, pois tem como intenção primordial atingir o cerne da emoção e da ação, indo direto ao âmago da linguagem. O que foi visto/escutado e o que foi vivido mistura-se de uma maneira indivisível, instantânea, na mente de quem lê. A memória do autor passa a ser a nossa própria memória.

Os textos mais longos contidos nas partes finais com os subtítulos de “De rua e sangas” e “Enquanto cantais”, são narrativas de memórias e histórias populares e indígenas, que encantam pelo poder de nos transportar para aquelas realidades diferentes, para que possamos vivenciá-las como se fossem nossas. Vemos nelas uma das grandes qualidades de Sidnei Schneider como narrador, a capacidade de vestir os personagens principais com características tão humanas que vemos nelas os nossos vizinhos e nós mesmos. Nos identificamos com elas através de outra qualidade do autor, que é a de fazer a emoção se transformar em arte, assim atingindo a nossa emoção e o nosso intelecto.

Traz, assim, Sidnei Schneider, para a literatura do Rio Grande do Sul, uma obra que ficará marcada na lembrança dos que a lerem, como um humano depoimento que emociona e nos remete às memórias (poderiam ser perdidas) – do nosso povo. O escritor consciente as acolhe, recolhe, e reparte para nós, leitores; para que as guardemos como nossas.

A OBRA

Título da Obra: “À linha d’água do rio”

Autor: Sidnei Schneider.

Ano: 2024

Páginas: 132

Editora: Pubblicato