Caderno de Sábado

A literatura amefricana de Eliane Marques

Professora e pesquisadora Zilá Bernd analisa o livro “Louças de Família”, da escritora gaúcha, que é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura neste ano

Escritora e psicanalista gaúcha Eliane Marques, autora do livro "Louças de Família", finalista do Prêmio São Paulo de Literatura
Escritora e psicanalista gaúcha Eliane Marques, autora do livro "Louças de Família", finalista do Prêmio São Paulo de Literatura Foto : Gisamara Oliveira / Divulgação / CP

Vale conferir as inovações introduzidas por Eliane Marques, no âmbito da literatura afro-brasileira. No recente romance, de 2023, intitulado “Louças de Família”, a autora mergulha na saga vivida por escravos e seus descendentes no Rio Grande do Sul. Poderosa obra que ilumina, de forma inovadora, a vida dos negros tanto nas fazendas quanto na periferia das cidades, desvelando a crueldade com que foram tratados por seus senhores em diferentes etapas, mesmo muito tempo após a Abolição da escravatura.

Utilizando uma linguagem que inclui elementos de criatividade, provoca o leitor com neologismos aos quais devemos nos habituar para melhor curtir essas saborosas inovações, tais como “tiomeu” (ao invés de meu tio), “minhancestra” (ao invés de minha ancestral), “minhavó” (minha avó). Trata-se de efeitos de linguagem que produzem um certo desconforto no leitor, até que ele se acostume e passe a saborear a criatividade de tais construções que têm uma razão de ser: trata-se de aproximar o leitor da oralidade de seus personagens.

As “louças” que dão título ao livro não equivalem, segundo a autora, “a cadeiras mesas relógios de parede anéis baldes de água fria esfregões de aço frigideiras panelas de arroz queimado ou outras coisas que moram em nós..... As louças são os ossos que sustentam a verticalidade do esqueleto. Se uma delas for quebrada ou lascada, o esqueleto se desmontará” (p. 17 e 18).

Quem narra é Cuandu que vai apresentando os diferentes personagens ao leitor, como a tia Eluma. A narrativa segue um ritmo de realismo mágico, deixando, de início, o leitor um tanto desorientado, obrigando-o a se desfazer da lógica do mundo dos brancos para entrar no universo do maravilhoso das crenças e saberes dos africanos chegados ao Rio Grande do Sul, mais especificamente na fronteira com o Uruguai. A narrativa não poupa o leitor de passagens cruéis como os castigos infligidos aos escravos, trazendo à tona o racismo, o tratamento desumano reservado aos escravos, fossem eles adultos ou crianças, destacando – ao longo de todas as 275 páginas – as profundas desigualdades entre senhores e escravos.

Trabalho memorial de grande fôlego é desenvolvido pela autora que lembra atos de crueldade e de abusos praticados pelos senhores, evidenciando que a escravidão no extremo sul do país não foi em nada diferente daquela dos grandes centros escravistas do Brasil, como Rio de Janeiro, Bahia e todo o nordeste brasileiro, em termos de tratamento desumano dispensado aos escravos. As descrições de atos de crueldade praticados contra os escravos fossem eles mulheres ou crianças, muito jovens ou já muito idosos, precisam ser rememorados em um Estado como o Rio Grande do Sul onde se pretendeu que a escravidão não houvera revelado seu lado mais cruel.

Como se lê na contracapa do livro, o ponto alto do romance é o uso de uma linguagem recriada que corresponde a uma amálgama de português, espanhol e iorubá. A valorização do saber popular e oral, serve de contraponto ao saber científico, como escreve a própria autora que nos relembra que quem inventou a inferioridade negra foram os “considerados cientistas”, ou seja, os brancos que pretendiam provar, “com fundamento em medidas do crânio e toadas desse tipo”, que os negros pertenceriam a uma raça inferior e que, portanto, podiam ser escravizados.

Linda a passagem em que a autora afirma amar Aimé Césaire, o célebre poeta negro caribenho considerado o “pai da negritude”, confessando não lhe ser possível – como foi a Césaire – se “preservar de todo ódio. Impossível não fazer de mim uma mulher ódio” (p. 80). Nessa medida, a autora declara “ser da escola das ressentidas” (p. 112). Lendo as descrições de cenas de injustiças e atos de verdadeira selvageria cometidas contra negros, fossem homens, mulheres ou crianças, o leitor se irmana à revolta da autora.

Nascida na fronteira entre Brasil e Uruguai, Eliane Marques que é psiquiatra filiada a Après Coup Psicanálise e Poesia, fez da região da qual é originária, o cenário para o excelente e perturbador “Louças de Família”. Criou a Escola de Poesia Amefricana e foi vencedora de prêmios importantes como o Açorianos de Literatura e o Minuano de Literatura.

Um aspecto importante que seu livro aponta é que a maldade não vem só dos brancos; há personagens negros cruéis em “Louças de Família”. A autora evita, assim, de cair em um maniqueísmo fácil, lidando com a questão do mal para mostrar que ele pode vicejar tanto em negros quanto em brancos, pobres ou ricos. Trabalha ainda com a noção de que – em determinadas circunstâncias – a crueldade precisa ser “aquietada”.

Livro indispensável para conhecermos pela ótica feminina a situação do negro no Rio grande do Sul. “Louças de Família” desafia o leitor porque não é uma leitura fácil, traz temas extremamente perturbadores como a crueldade, a violência, o racismo e sua consequência inevitável: as exclusões. Podemos considerar sua obra como uma continuidade à de autores hoje célebres da Literatura afro-brasileira como Solano Trindade (1908-1973), Cuti, Oliveira Silveira, Conceição Evaristo, Miriam Alves e tantos e tantas outros/as. Tais autores pensaram a cultura das três Américas como uma totalidade: ser negro é uma forma de ser americano; ser negro americano é participar, pela mediação da escrita literária, “da desconstrução da imagem negativa que a sociedade elaborou ele” (Bernd, 2018, p. 93). Devolver ao negro o orgulho de sua ancestralidade e ressignificar palavras estigmatizadas, transformando seu sentido histórico em referenciais positivos, parece ser a intenção primeira dos autores que fazem hoje a literatura afro-brasileira ou amefricana, como quer Eliane Marques.

REFERÊNCIAS

MARQUES, Eliane. Louças de família. Belo Horizonte: Autêntica, 2023.

BERND, Zilá. Negritude e literatura na América latina. 2. Ed. Porto Alegre: Circula, 2018.