“Adorable puente se ha creado entre los dos.”
—‘Puente’, álbum Bocanada.
Assim diz a letra do refrão de uma das músicas mais icônicas da sua carreira solo. As palavras de “Puente” inspiram conexão, vínculo que emerge como resultado do amor. O cantor sente gratidão e exclama “Gracias por venir” repetidamente. “Bocanada” seria o seu segundo álbum como artista solo e o primeiro depois da separação de Soda Stereo em 1997. Saberia Gustavo Cerati sobre as pontes que as suas canções construiriam? Uma ponte não precisa ser tangível; ela também pode ser invisível. O mais essencial não se enxerga, simplesmente se percebe no ar como uma matéria incomum e mágica; um pó de estrelas e de astros cósmicos que conversam entre si para combinar a chegada dos seres que aparecem a cada mil anos. “Uno entre mil”, “La Excepción”, “Magia”, “Fuerza Natural”; todas as líricas se conectam para finalmente ser uma expressão autorreferencial de alguém que era consciente da sua singularidade; alguém que declarou que nasceu para fazer coisas impossíveis.
Oriundos de “La ciudad de la furia”, ou também Buenos Aires, Gustavo Cerati e Soda Stereo definiram a voz de uma geração. Representaram os jovens alienados e com sede de muito mais que aquilo que oferecia a cotidianidade e o ruído das grandes capitais. Essa sede se estende a outros países fora da própria Argentina porque, no fim das contas, a espécie humana é a mesma em todos os casos. As guitarras e letras do Cerati ecoaram em outras partes da América do Sul, e aqui é onde começa um breve périplo que quiçá nos ilumine sobre a forma em que as melodias de Cerati e Soda tem se projetado e impactado nos músicos gaúchos, no estado de Rio Grande do Sul e no Brasil inteiro.
Primeiro foi a América Latina. O nome Soda Stereo começou como uma junção de termos engraçados que Gustavo Cerati e Zeta Bosio anotavam em um caderno enquanto cursavam Publicidade no amanhecer dos 80. Logo mais estariam ensaiando na garagem da casa do baterista Charly Alberti, que fazia insistentes ligações por telefone ao lar dos Cerati para conversar com a irmã de Gustavo. Tudo era muito improvisado nessas épocas de equipamentos básicos e autogestão, porém foi ali que surgiram os primeiros hits, conversas e asados. Atualmente, a casa do Charly, localizada no bairro de Belgrano, é reconhecida oficialmente pela Legislatura portenha como “La esquina Soda Stereo”.
Em 1984 chegaria o primeiro álbum autointitulado, produzido pelo vocalista de Virus: Federico Moura. Daqui em diante, Soda não pararia de produzir material discográfico de alta qualidade e com dezenas de hits por álbum. As primeiras músicas deles tinham caráter de jingle, produto da carreira que Gustavo e Zeta estavam cursando. Resulta importante considerar que o sucesso de Soda começou pouco tempo depois que a Argentina retornou à democracia, após uma ditadura militar entre 1976 e 1983, junto com a funesta Guerra de Malvinas em abril de 1982. Se fizermos um paralelo, no Brasil ainda faltariam dois anos até o dia 15 de março de 1985.
Os próximos discos adquiriram um caráter mais maduro até que em 1990 chegaria o divisor de águas: “Canción Animal”. Este último foi gravado nos EUA, com o objetivo de fazer uma mudança; Cerati sempre teve essa aura que lembra David Bowie por querer oferecer algo diferente o tempo todo. O conceito de mudança persiste em toda sua obra, com Soda e sua brilhante carreira solo. Como resultado, Soda fez uma turnê que nenhum outro artista repetiria a posteriori, passando por 31 cidades argentinas e, internacionalmente, por Chile, México, Paraguai, Colômbia, Uruguai, Venezuela e Estados Unidos. A Gira Animal foi encerrada com 14 apresentações no teatro Gran Rex de Buenos Aires, que na época foi recorde. Para encerrar esta época dourada, no dia 14 de dezembro de 1991, Soda fez um show histórico na Avenida 9 de Julio para um total de 250 mil pessoas. Depois desse show multitudinário, Zeta e Gustavo sentiam que não havia muito mais que conquistar no território argentino.
Construindo pontes entre Argentina e Brasil. Soda Stereo e Gustavo Cerati não possuem apresentações oficialmente registradas no território brasileiro. Apesar do sucesso massivo na América Latina, a música do trio argentino tem chegado por outros caminhos até as terras gaúchas. O autor deste texto tem viajado inúmeras vezes para o Brasil e voltado para Buenos Aires, e pode afirmar que a identidade das bandas de rock gaúchas merece ser mais reconhecida na cidade portenha. Artistas como Júpiter Maçã, TNT, Cascavelletes, Cachorro Grande, Nenhum de Nós, Armandinho, Engenheiros do Hawaii, Vera Loca e Duca Leindecker são ainda nomes pouco populares para os argentinos. De forma contrária e atípica, nomes como Fito Páez, Charly García, Spinetta e Cerati não parecem ser tão raros no Brasil, pelo menos para os mais estudiosos, e ainda mais numa cidade conhecida como a capital do rock gaúcho: Porto Alegre.
Historicamente, as primeiras versões brasileiras da música de Soda Stereo foram as de Paralamas em 1996 e do Capital Inicial em 2002. Ambas bandas regravaram “De Música Ligera”, o hit absoluto de “Canción Animal”. Porém, elas não são bandas gaúchas. Existe um artista porto-alegrense que fez uma homenagem direta à uma música da carreira solo de Gustavo Cerati, sendo ele o primeiro em registrar oficialmente uma ponte entre a música do Cerati e o rock gaúcho: Marcelo Gross. Marcelo, que tocou com Júpiter Maçã e também é o guitarrista e compositor na sua banda autoral Cachorro Grande, declara que o Cerati é “o seu argentino favorito”. Cachorro Grande foi banda de abertura dos Rolling Stones e de Oasis nos shows em Porto Alegre, e também possui um trabalho discográfico significativo na cena do rock nacional. Desde 2019, Marcelo tem trabalhado principalmente na sua carreira solo e em 2024 gravou a sua versão da música “Cosas Imposibles” que figura no disco “Siempre es hoy”, de Cerati. A versão foi traduzida como ‘Coisas Impossíveis’ e está registrada no seu álbum ao vivo Grossroads, com um vídeo disponível no YouTube.
Pouco tempo depois, em março de 2025, o produtor brasileiro Ilton Carangacci, teria a ideia de celebrar seus 40 anos na área da produção de uma forma singular. Sendo ele um admirador das melodias Ceratianas e também da cidade de Buenos Aires; durante um café com o guitarrista Marcelo Schmidt, surgiu a ideia de impulsionar a primeira homenagem oficial à música de Cerati e Soda no país, chamada Cerati Day Brasil. Para o evento, foram selecionados músicos da cena gaúcha, começando pelo exímio guitarrista e produtor musical Veco Marques (Nenhum de Nós), Mumu no baixo (Vera Loca), João Maldonado nos teclados (TNT), o mesmo Marcelo Schmidt na guitarra (Tex Mex), o notável baterista Dani Vargas e a presença do autor deste texto, Andy Pugliese, para os vocais e violões.
O primeiro evento Cerati Day Brasil foi celebrado na quinta-feira, 8 de maio no histórico bar de Porto Alegre, o lendário Sgt. Pepper’s, por onde milhares de grandes talentos têm passado ao longo de quase 40 anos. Participaram músicos gaúchos como cantores e convidados; Marcelo Gross, Frank Jorge, Pirisca Grecco, Fabricio Beck, Lara Rossato, Hernán Gonzalez e Marcelo Astiazara. Antes de tudo isto, é claro que a música de Gustavo Cerati já estava sendo tocada nos bares da Cidade Baixa, em locais com uma cara mais boêmia de Porto ou mesmo ao longo do RS. Várias bandas gaúchas incluem “De Música Ligera” no repertório, mas são bem poucas as que destinam um lugar para as canções da carreira solo de Cerati. Quem sabe, depois deste primeiro evento com ingressos esgotados (que já tem segunda edição no dia 31 de julho), esteja começando a ser construída uma nova ponte – que cada dia cresce mais – entre dois países irmanados pela poesia, melodia e magia do legado do artista que foi chamado arquiteto do som pelo Charly García, por ser muito mais do que um músico e conseguir criar paisagens sonoras e vanguardistas que formam uma experiência fora dos limites para todo aquele que quiser se aventurar junto. Say no more.
SERVIÇO
- O QUÊ: 2° Cerati Day Brasil: Tributo a Soda Stereo e Gustavo Cerati
- QUEM: Produção de Ilton Carangacci e banda com Veco Marques, Marcelo Schmidt, Andy Pugliese João Maldonado e Dani Vargas, com cantores convidados como Fabricio Beck, Frank Jorge, Marcelo Gross, Pirisca Grecco e outros.
- QUANDO: 31/7 às 20h
- ONDE: Sgt Peppers (Quintino Bocaiuva, 256)
- COMO: Ingressos: Sympla.
Acompanhe entrevista de Luiz Gonzaga Lopes com Ilton Carangacci, Veco Marques e Andy Pugliese sobre o 2º Cerati Day Brasil