Caderno de Sábado

A Mulher de César e o Vintém

Escritor e presidente da Associação dos Amigos da Biblioteca Pública do Estado, Alcides Mandelli Stumpf, parte de um fato histórico na Roma Antiga para falar sobre a importância de ser honesto, mais do que parecer honesto

Imperador romano Júlio César repudia atitude da esposa Pompeia Sulla em 63 a.C.
Imperador romano Júlio César repudia atitude da esposa Pompeia Sulla em 63 a.C. Foto : Francesco Bertolini / Wikimedia Commons / CP

Reza a história que no dia 1° de maio de 62 a.C., Pompeia Sula, segunda esposa de Júlio César — o líder supremo de Roma — organizou uma festa em sua residência. Pompeia era jovem e de aparência fagueira; sua figura contrastava com a já carcomida imagem do general envelhecido, que havia conquistado a Gália, atualmente França. O rumoroso evento chamou atenção por vários motivos, como veremos adiante.

A princípio, o folguedo era destinado exclusivamente às mulheres, algo como um “clube da Luluzinha” ou “Only for Woman”. No entanto, um simpático intruso, Públio Clódio - que nutria forte interesse pela anfitriã -, decidiu se infiltrar na farra das dondocas. Rico e audacioso, ele se disfarçou de tocadora de lira e conseguiu entrar entre as convidadas com o objetivo de se aprochegar à sua amada. No fim, a farsa foi descoberta, e o escândalo tomou conta da cidade de Roma.

Mesmo que não tivesse acontecido nada entre os pombinhos e seus arrulhos, o grande César – que não tinha nada de bobo – imediatamente optou pelo divórcio e cunhou a frase que ficaria para posteridade: “A mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita. À mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta”. Mais uma vez o supremo cônsul foi implacável com o destino, inclusive de sua cacarejante esposa. Mas César era César, e só teve um na história.

Impressiona que passados mais de dois mil anos, a lição desse acontecimento persiste atual e relevante. Ela destaca a importância da reputação e da percepção da imagem pública dos que se arvoram a governantes.

Por outra, é igualmente sabido por todos que os maiores inimigos da boa fama são as mentiras, a desonestidade, a falta de transparência, além do comportamento vulgar, o palavreado chulo e aparência desleixada.

Assim é certo que para quem ocupa uma posição de liderança, não basta ter uma conduta moralmente correta – ser honesto. É essencial que as pessoas acreditem nessa honestidade – deve-se, portanto, parecer honesto.

O filósofo chinês Confúcio, há mais de 25 séculos, também dizia que “A imagem vale mais que mil palavras”. Contudo, ainda existem os que não compreendem a necessidade de manter a aura impecável enquanto ocupam posições de destaque.

Depois, há os que não sabem o porquê da popularidade de certas figuras proeminentes de ocasião despencar dia após dia.

Certamente esses não leram a história, não sabem nada de história e jamais serão história. Enfim, dizia minha sábia avó, “quem nasceu para ser vintém nunca chega a ser tostão”.