Caderno de Sábado

A persistência da memória: em torno da obra de Ana Maria Gonçalves

Professora, pesquisadora e integrante da Academia Rio-Grandense de Letras, Zilá Bernd, destaca em artigo a boa nova da Literatura Brasileira que é a escolha da escritora mineira para a Academia Brasileira de Letras

Ana Maria Gonçalves é a primeira escritora negra a ocupar uma cadeira, a de número 33, na Academia Brasileira de Letras
Ana Maria Gonçalves é a primeira escritora negra a ocupar uma cadeira, a de número 33, na Academia Brasileira de Letras Foto : Leo Pinheiro / Divulgação / CP

A boa nova em termos de Literatura Brasileira é o fato de Ana Maria Gonçalves, autora de “Um defeito de cor” (Record, 2010), fabuloso livro de 950 páginas - onde se recupera a memória da escravidão pela ótica de uma mulher escrava – se torna a primeira mulher negra a ingressar na Academia brasileira de Letras (ABL). Ocupando a Cadeira 33 que pertencia a Evanildo Bechara, Ana Maria Gonçalves foi eleita com 30 votos, entre 31 acadêmicos votantes.

Merecidíssima distinção, pois a obra acima citada traz à tona o papel da mulher negra durante o longo período da escravidão no Brasil, já que, em Um defeito de cor, a autora se propõe a recuperar a memória da mítica escrava Kehinde, que recebeu o nome de Luísa Mahin ao chegar do Daomé, à ilha de Itaparica, na Bahia. O romance procura retraçar um período que vai de 1810 a 1877, respeitando a diacronia, e contando a história do ponto de vista de uma mulher escrava que assume a primeira pessoa do discurso.

Importantes passagens da vida nas fazendas, como os castigos cruéis e as vinganças dos escravos são narradas pela escrava Kehinde que aprende a ler acompanhando as aulas ministradas à sua sinhazinha. A voz narrativa em primeira pessoa e a forma epistolar, que emerge em muitos momentos, quando ela inicia a longa procura pelo filho, adquire as características de romance memorial. O drama consiste, pois, na busca incessante pelo filho que fora vendido indevidamente como escravo, já que era filho de um homem livre, logo de sua chegada à Bahia, sendo que ela nunca mais pode tornar a vê-lo.

Kehinde/Luísa sente necessidade de romper o silêncio entre as gerações e transmitir suas memórias ao filho que, embora ausente, é o herdeiro dessa memória cultural resgata. Decide fazê-lo através de cartas, embora se sinta na contramão da cultura oral africana. O essencial é que o filho saiba de sua história, para que não ficasse como ela própria, sem ter consciência de seu passado no núcleo familiar, e que tomasse conhecimento de seu empenho em reencontrá-lo, através de uma busca que durou várias décadas. Em outros momentos, hesitou em pôr no papel suas memórias:

“Já não tenho mais quase tempo algum, a não ser o que já passou e que eu gostaria de te deixar como herança”. (Gonçalves, 2010, p. 617)

No papel atual de guardiã da memória parental, urge transmitir essa herança memorial ao filho, sobre o qual – bem mais tarde, já cega e em idade avançada – veio a saber que se tornara advogado, poeta e defensor da causa dos escravos. Sabe da importância de legar ao filho a consciência de pertencer a uma cadeia de gerações sucessivas e de sentir-se herdeiro desse legado. Como nos ensina Joel Candau, a memória geracional “é a consciência de sermos os continuadores de nossos predecessores” (2012, p. 142).

Narrar está, pois, na origem da memória parental. Ao narrar ao filho suas inúmeras travessias – da África para o Brasil, de Salvador para o Maranhão, a volta para a África e, finalmente, o desejo de retornar ao Brasil – Kehinde sabe que é “narrando que a vida se transmite, seja nos escritos, seja na transmissão oral”, como escreveu Celso Gutfreind, 2010, p. 28).

Inspirada no primeiro poeta a assumir o eu enunciador que se quer negro na literatura brasileira (Luís Gama - 1830-1882), Ana Maria Gonçalves retoma, no título do romance, um fragmento de um poema atribuído a ele: “Em nós até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime” (Gama, s/d). Essa homenagem prestada ao poeta perpassa toda a obra a começar pelo título do livro _Um defeito de cor – inspirado nos versos de Luís Gama. Contudo, a importância maior deste soberbo romance está na focalização feminina: é a partir das cartas de uma mulher negra, ex-escrava, que o leitor acompanha os acontecimentos ocorridos nos ásperos tempos da escravidão, no decorrer do século XIX, sem que nunca o nome do poeta seja mencionado. O leitor intui, pelas pistas deixadas pela narradora, que se trata da vida da mãe de Luís Gama, a figura mitológica de Luísa Mahin, ativista da Revolta dos Malês.

Ao colocar em cena o jogo entre memória e identidade, entre emergência da memória geracional e a construção da memória cultura e, ao realçar o papel da transmissão como peça-chave do romance memorial, Ana Maria Gonçalves faz de Um defeito de cor o espaço privilegiado da transferência da figura lendária de Luísa Mahin para o território híbrido do romance. Contribui, assim, para a divulgação do papel de uma mulher guerreira, representativa da rebeldia, da defesa da luta contra os preconceitos e do respeito à tradição e à memória ancestral, assim como do amor materno.

O destinatário dessa trajetória de reconstrução identitária, através da recuperação da memória cultural, não é somente o filho. Mas todos nós, leitores desse romance, pois, conforme Anne Muxel, o destinatário de uma transmissão não é unicamente aquele que pertence a uma mesma cultura, já que a “transmissão, como a memória, resulta sempre de uma reapropriação, podendo nos levar a deslocamentos, como a inversões de sentido, de espaço e de temporalidades” (Muxel, 2003, p. 157).

Ana Maria Gonçalves vai representar muito bem - na ABL - a literatura negra ou afro-brasileira, assim como a todas as mulheres que leem e que escrevem nesse país.

REFERÊNCIAS

BERND, Zilá. Por uma estética dos vestígios memoriais. Belo Horizonte: Fino traço, 2013.

CANDAU, Joel. Memória genealógica; memória geracional. In: Antropologia da memória. Instituto Piaget, 2005.

GUTFREIND, Celso. Narrar, ser mãe, ser pai e outros ensaios sobre a parentalidade. Rio de Janeiro: Difel, 2010.

MUXEL, Anne. Temps, mémoire, transmission. IN: RODET, Chantal, dir. La transmission dans la famille: secrets, fictions et idéaux. Paris : L´Harmattan, 20023, p. 147-157.