Por ocasião da retrospectiva de Ana Norogrando no Museu de Arte do Paço (MAPA), é pertinente refletir sobre a contribuição de sua obra para a arte brasileira. Ao longo de mais de quatro décadas, sua produção desenvolveu um repertório através do desenvolvimento de problemas da tradição artística, fazendo deles a própria matéria da estética contemporânea. Atravessada ocasionalmente por abordagens de gênero, sua produção vem articulando um alto grau de inovação, cuja contribuição é histórica, tenha ela ou não adquirido ainda pleno reconhecimento à altura de sua contribuição, como é o caso da obra de tantas artistas brasileiras de sua geração.
A relação da produção da artista com a história da arte, desde a estatuária clássica até a cultura industrial moderna e os procedimentos de construção e montagem do readymade, demonstra que essas contribuições participam de uma condição experimental, dentro da qual a forma artística situa-se como convenção cultural. Tais tradições oferecem um repertório de problemas que Norogrando rearticula pela via da matéria e suas manifestações simbólicas, e cada uma delas através de procedimentos estratégicos, incluindo aqueles da tradição geométrica e as expressões da imagem.
A obra da artista participa dessa historiografia da forma ao situar a figura como uma construção cultural e artística, como, por exemplo, em sua série de obras Corpos, onde a estrutura adquire uma dimensão fragmentária que evita o essencialismo quando a figura surge do universo das coisas que colocam em evidência sua relação com a tecnologia da fabricação. Em sua série de obras com cabeças de manequins, os rostos desenvolvem outra dimensão de sua obra, aquela da tradição vinculada ao retrato e ao campo da representação. O vínculo destas esculturas com o fragmento e a longa tradição na história das formas estabelece uma relação intrínseca entre partes e sua totalidade. Ele invoca uma configuração que aproxima estas formas à história da ruína e sobrevivência das formas, visto que sua materialidade contém a experiência de uma totalidade pregressa.
Os materiais industriais e a adoção da produção seriada provenientes da experiência moderna conduziram, na obra da artista, a uma abordagem da forma relacionada à fabricação técnica. Quando um elemento industrial ingressa em sua obra, sua existência anterior é inscrita em uma noção de semelhança, fazendo com que a passagem entre diferentes regimes de produção semântica torne-se recorrente. Assim, a montagem assume uma função conceitual, visto que elementos provenientes de diferentes fontes são reorganizados segundo relações capazes de produzir um sentido de unidade que reativa a obra, fazendo com que a fonte destes componentes permaneça perceptível, criando uma experiência de reconhecimento.
As suas obras olfatórias, por outro lado, acrescentam uma dimensão sensorial que passa a ter uma relação singular com o campo perceptual do objeto artístico, e são emblemáticas de como sua produção se vincula a tradições artísticas variadas. Suas estruturas geométricas e simultaneamente orgânicas possuem um lastro construtivo que as aproxima das experiências arquitetônicas, entre as quais se encontra o cobogó, amplamente empregado na arquitetura moderna brasileira, possuindo ainda um vínculo com a mashrabiya da arquitetura islâmica, elementos associados à filtração da luz, à circulação do ar e à articulação entre intimidade privada e espaço público. O choque entre essas tradições evidencia uma concepção da geometria como “membranas permeáveis”, capazes de estabelecer relações entre ambientes tais como o mundo prisional, e de articular diferentes regimes entre a luminosidade, o ar e sua atmosfera. A não-normatividade de sua produção decorre dessa capacidade de transformar seus próprios fundamentos, fazendo com que a forma permaneça fenomenologicamente ativa através de seu potencial de engendrar novas vias interpretativas.
Cabe aqui mencionar a enchente de dimensões bíblicas que atingiu o Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024, uma catástrofe que acrescentou uma outra dimensão à legibilidade da produção da artista e que é significativa para esta exposição. Na Ilha Grande dos Marinheiros, onde estão localizados sua residência e o estúdio, estes ficaram submersos por mais de um mês, danificando ou destruindo a grande maioria das obras realizadas ao longo de sua trajetória. O reconhecimento internacional desse patrimônio veio na forma de apoio financeiro através do Fundo Emergencial da Fundação Adolph e Esther Gottlieb de Nova Iorque para a restauração das obras e a recuperação da infraestrutura de trabalho. Das 114 obras incluídas nesta exposição, 58 foram integralmente recuperadas, excetuando-se apenas as cerâmicas, fotografias e as obras recentes, fazendo com que elas se vinculem àquela tragédia, e parte de sua história material e metafórica reforce um problema artístico que atravessa a trajetória da obra, a capacidade da forma de subsistir através de constantes transformações.
Uma obra incluída nesta exposição alude tangencialmente à tragédia. Trata-se de Mar de Sangue (2026), um vídeo que invoca o hibridismo da tradição barroca em uma operação conceitual, cuja compreensão da matéria sempre esteve fundada na intensidade do drama e na teatralidade da forma. O Barroco emerge nesta obra da artista justamente porque sua lógica visual, expressa aqui nas ondas de lodo e sangue, se organizou pela transformação de uma gramática onde o mundo se apresenta em permanente estado de metamorfose, fazendo da expansão volumétrica e das entranhas do sofrimento instrumentos de construção da experiência emotiva. Parte da obra de Norogrando reinscreve essa tradição dentro da linguagem da imagem, da fotografia e do movimento, produzindo uma situação em que o fluxo marítimo das ondas assume a monumentalidade emocional característica de uma contradestratégia pós-colonial do Neobarroco.
É assim que a obra de Norogrando torna evidente sua profunda relevância porque concebe a obra artística como um fenômeno capaz de incorporar o tempo, as tradições artísticas e seu desenvolvimento material e histórico, fazendo com que o desenvolvimento das formas e suas circunvoluções deem continuidade à historiografia de seu desenvolvimento. Essa exposição torna visível esse fenômeno e confere extraordinária relevância ao conjunto de sua produção, mostrando a capacidade da história das formas de continuar atuando no presente.
SERVIÇO
- O QUÊ: Exposição “2016-2026”, de Ana Norogrando
- QUANDO: Fica em cartaz até 13 de novembro.
- ONDE: Museu de Arte do Paço, na Praça Montevidéu, 10, Centro Histórico de Porto Alegre, onde ocupa a Sala Aldo Locatelli, a Sala da Fonte e o Porão do Paço.
- COMO: Visitação é de segunda a sexta, das 9h às 17h. Entrada gratuita.