Entre as efemérides culturais de 2025 alcançamos os cem anos do início da relação de Angelo Guido (1893-1969) com o Rio Grande do Sul. E trata-se deste marco o mote para a retrospectiva que está em curso na Casa da Memória Unimed Federação/RS, sob curadoria deste interlocutor e Marco Aurélio Biermann Pinto: “Angelo Guido – Um século de arte e legado no Rio Grande do Sul”. Este pintor e intelectual foi um dos principais nomes das artes plásticas gaúchas do Séc. XX. Ele aqui escolheu radicar-se após já ter vida e carreira consolidadas, cuja contribuição – antes e depois – tornou-se indispensável à compreensão em conjunto de nossa arte. Entre outros nas mesmas características, José Lutzenberger, Maristany de Trias, Ado Malagoli e Xico Stockinger.
Guido Alessandro Gnocchi nasceu em 10 de outubro de 1893, na Comuna de Duemiglia (Lombardia, Itália). A família logo emigrou para o Brasil, em 1895, a residir em São Paulo. Lá, Guido frequentou o Liceu de Artes e Ofícios, onde certamente apreciou obras de Pedro Weingärtner, então abrigadas na escola. Em 1912, foi para Salvador com o tio, Aurélio Gnocchi, para trabalharem na decoração da sede do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Com a morte do pai em 1914, Guido voltou para São Paulo e mudou-se para Santos. Lá, se casou com a feminista Elsa Lustosa da Silva (1893-1937), em 1915, e encampou a Teosofia. Manteve-se por muitos anos em ativo envolvimento com assuntos esotéricos, a participar de entidades, na apresentação de conferências e com publicações de artigos sobre o assunto.
Em 1922, publicou seu primeiro livro, “Ilusão - Ensaio sobre ‘A Estética da Vida’”, uma exegese filosófica em torno do livro de Graça Aranha. No mesmo ano, executou as pinturas das molduras dos painéis de Benedito Calixto (1853-1927) na Bolsa Oficial de Café, em Santos, realizando exposição em conjunto com este artista. Com mais efetividade, iniciou o seu ofício de pintor, pari passu às suas outras atividades intelectuais. Desde o início, desperta interesse que a sua produção pictórica foi completamente desvinculada das temáticas esotéricas e filosóficas que lhe envolviam, voltada quase que exclusivamente a paisagens elaboradas diretamente dos locais que visitou e raras vezes tomadas de de fotografias. Em 1923, participou da III Exposição Geral de Belas Artes, Rio de Janeiro; em 1924, com a agenda de conferências, realizou duas individuais em Recife. No ano seguinte, em Fortaleza e São Paulo. Na capital paulista, conferenciou sobre arte moderna no Instituto Histórico e Geográfico, o que demonstrava a sua percepção dos rumos na arte.
Já com o Rio Grande do Sul em seu “radar”, a partir de contatos com o casal de poetas gaúchos Aplecina e Manuel Fernandes do Carmo, residentes em São Paulo, Guido articulou uma viagem a Porto Alegre. E foi entre setembro e outubro de 1925, há um século, que ele aqui esteve para o seu primeiro encontro com a cidade, a ministrar conferência sobre arte moderna, organizada pelo Clube Jocotó, e para a individual na Casa Jamardo, a qual contou com expressiva venda de pinturas e elogios na imprensa. Aquele curto período, intenso e muito receptivo, o fez elaborar um juízo, aos 32 anos de idade, de onde e como poderia estabelecer-se definitivamente para poder sobreviver de seu trabalho intelectual. E Porto Alegre pareceu se encaixar em seus planos, se as condições objetivas viessem. Até 1927, Guido seguiu com exposições, conferências e artigos, em Curitiba, Santos, Salvador, Recife, Belém, Manaus e São Paulo. Em março de 1928, retornou a Porto Alegre para outra exposição, sendo convidado por Leonardo Truda para trabalhar no Diário de Notícias. Era o que Angelo Guido buscava, um emprego fixo na área intelectual em um contexto cultural local em ascensão.
Assim, Angelo Guido – nome profissional usado a partir de 1919 e legalmente adotado como prenome em 1927 – aqui finalmente radicou-se, aos 34 anos. Continuou a produzir de forma intensa, viajou, palestrou, expôs e integrou júris como representante do meio gaúcho. Foi professor laureado no Instituto de Belas Artes do RS entre 1936 e 1963, trabalhou em jornais, cargos públicos, organizou exposições, publicou artigos e livros, entre os quais “Pedro Weingärtner” (1956), a primeira biografia de fôlego sobre um artista gaúcho. Faleceu de infarto, em viagem a Pelotas, a 9 de dezembro de 1969. Da memória dos que conviveram com ele, em especial alunos, tem-se o registro de seu alto nível intelectual, difícil de acompanhar. Sua produção em pintura jamais diminuiu de ritmo por suas intensas carreiras paralelas. Ainda está por se desvendar a real dimensão de sua obra artística, em meio a tantas atividades que exerceu. Porém, não resta dúvida do relevante nível desta produção, décadas presente em exposições e hoje integrante dos principais acervos e coleções privadas locais.
E sobre sua produção pictórica e literária versa a retrospectiva de Angelo Guido, em exposição na Casa da Memória Unimed Federação/RS, que neste 26 de julho, às 10h, lança o catálogo, gratuito, com a reprodução das 42 obras expostas e cronologia inédita, em tópicos das principais atividades intelectuais e com dados de sua vida pessoal, elaborada em pesquisa do curador Marco Aurélio Biermann Pinto e com imagens de momentos da vida de Angelo Guido, entre elas, fotografias do arquivo do Correio do Povo, apoiador da mostra.
SERVIÇO
- O QUÊ: Exposição “Angelo Guido - Um século de arte e legado no Rio Grande do Sul”.
- QUANDO: Lançamento do Catálogo, 26 de julho, às 10h. Mostra em exibição até 7/8, de segunda a sexta, das 13h às 17h30min.
- ONDE: Casa da Memória Unimed Federação/RS (Santa Terezinha, 263) – Porto Alegre.
- QUANTO: Grátis
- CONTATO: WhatsApp Casa da Memória (51) 99596-1029.