Caderno de Sábado

A roda que gira com arte

O ator e empresário cultural Zé Victor Castiel, idealizador do Porto Verão Alegre, trata da cultura como impulsionadora da economia no RS, sendo um antídoto contra a barbárie e tempos difíceis

Com mais de 240 sessões em 17 palcos, Porto Verão Alegre proporciona filas e teatros lotados
Com mais de 240 sessões em 17 palcos, Porto Verão Alegre proporciona filas e teatros lotados Foto : Isadora Quintana / Divulgação / CP

Há quem ainda insista em olhar para festivais e manifestações artísticas como meros divertimentos. “É só música, teatro, cinema… coisa de lazer”, dizem. Ledo engano. Festival é mais que espetáculo: é motor de economia, é gerador de renda, é catalisador de autoestima coletiva. E, convenhamos, em tempos em que tanta gente prefere deslizar o dedo pela tela do celular, a arte que pulsa em um festival é quase uma convocação à vida real.

Quando grandes cidades gaúchas recebem um festival multicultural, é como se um coração extra começasse a bater. Os hotéis enchem. Os restaurantes se multiplicam em reservas. Os motoristas de aplicativo fazem a festa. Até o vendedor ambulante de balas da esquina sente o movimento. A roda gira para o turismo, para o comércio, para a rede de serviços. E gira também nos bastidores: costureiras, técnicos de som, iluminadores, seguranças, cenógrafos, designers, locutores, professores. Cultura não é só aplauso: é folha de pagamento, é nota fiscal, é PIB com poesia.

E no Rio Grande do Sul temos exemplos marcantes. O Porto Verão Alegre, que mobiliza a capital e transforma o verão em temporada de teatro, é prova viva de que a cultura pode ser democrática e acessível. O Porto Alegre Em Cena, com espetáculos internacionais e nacionais, já consolidou a cidade no circuito cultural do mundo. A Feira do Livro de Porto Alegre, uma das maiores e mais longevas do gênero, prova ano após ano que literatura também pode lotar praças e criar encontros inesquecíveis. A Bienal do Mercosul, com suas edições que já atraíram visitantes do mundo todo, coloca nossas cidades no mapa das artes plásticas internacionais. O Festival de Cinema de Gramado, que transforma a serra em tapete vermelho, já fez mais pelo audiovisual brasileiro do que muito discurso em Brasília.

A lista segue: a Fenadoce, que une cultura, tradição e gastronomia; a Festa da Uva, patrimônio do imaginário gaúcho; os festivais de canção nativistas, que mantêm viva a chama da nossa identidade regional; os festivais de jazz, que trazem para cá uma música universal, capaz de embalar plateias do mundo inteiro; e a Noite dos Museus, que convida milhares de pessoas a ocuparem as ruas de madrugada, provando que cultura é também encontro, cidadania e pertencimento.

Todos esses eventos são, antes de tudo, movimentos de economia criativa. Gente que trabalha, empresas que faturam, cidades que se fortalecem.

E é impossível não lembrar da Lei Rouanet, tão injustamente atacada. Na prática, a Lei é o grande alicerce de muitos desses projetos. Permite que empresas destinem parte de seus impostos a iniciativas culturais, sem aumentar gastos do poder público. Patrocinadores ganham visibilidade e engajamento; artistas têm a chance de realizar seus trabalhos; a população recebe cultura de qualidade. Quem critica, em geral, não entendeu — ou prefere não entender. A demonização da Lei Rouanet nasce da desinformação e da politização rasteira. Sem ela, muitos dos espetáculos que hoje encantam plateias — e aquecem economias locais — simplesmente não existiriam.

Mas cultura não é só sobre contas pagas. É também sobre cabeças abertas. O lazer cultural proporcionado por festivais oferece uma experiência rara: pensar através do lúdico. A arte ensina sem manuais, provoca sem panfletos, desperta sem filtros de rede social. É antídoto contra a overdose de “informação” que nos chega em posts de 15 segundos.

Falar de cultura é falar também de saúde emocional. Em tempos de ansiedade coletiva, um espetáculo, uma exposição, uma boa peça de teatro, um concerto de jazz ou uma visita a um museu à meia-noite são respiros que lembram a todos nós que não somos só consumidores de tela, mas seres humanos capazes de sentir, refletir e se emocionar.

Como entusiasta do empreendedorismo cultural, afirmo sem titubear: apostar em multiculturalismo é investir em gente. É apostar no presente e no futuro do Rio Grande do Sul. É reafirmar que nossas grandes cidades podem — e devem — se colocar como polos criativos, vivos, pulsantes. Além disso, empreendedores culturais têm a responsabilidade de tornar seus eventos acessíveis a todos os tipos de público, promovendo inclusão social e garantindo que a experiência cultural seja de fato democrática e transformadora.

E termino com uma convicção otimista: cada festival é uma trincheira contra o cinismo. Cada espetáculo é uma pequena vitória contra a indiferença. Cada aplauso coletivo é um lembrete de que, sim, seguimos juntos, seguimos fortes e seguimos acreditando. Com arte, o Rio Grande do Sul não apenas gira. Ele gira mais bonito, mais inteligente e muito mais humano.