Caderno de Sábado

A Sinédoque Moral, o Canalha e o Escrito

Escritor e presidente da Associação dos Amigos da Biblioteca Pública do Estado, Alcides Mandelli Stumpf, escreve sobre o caráter para o Caderno de Sábado

Porém, nesta era de disfarces e máscaras bem talhadas, que vivemos no Brasil, o "caráter" tem se esvaziado da nobreza original
Porém, nesta era de disfarces e máscaras bem talhadas, que vivemos no Brasil, o "caráter" tem se esvaziado da nobreza original Foto : Pablo Runa / Divulgação / CP Memória

“No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia

seguinte.” (Nelson Rodrigues)

Há palavras que carregam dentro de si o peso do tempo – e “caráter”, é uma delas. Na Grécia antiga, originalmente, a palavra não tinha nada de abstrato. Era pedra e ferro: “charaktér”. Cinzel usado pelo escultor para gravar na pedra bruta a marca indelével; gesto definitivo – riscar a pedra, também era riscar o destino.

Com o passar dos séculos, caráter virou metáfora. Passou a representar o que distingue um ser dos demais – algo profundo, íntimo; essência do indivíduo; traço autêntico, alma desenhada em linhas.

Hoje, porém, “caráter” tornou-se palavra ambígua, espécie de camaleão semântico. Às vezes é letra que se digita num teclado, outras vezes, símbolo tipográfico. Também é o conjunto de princípios que molda a conduta de alguém. Mas, sobretudo, é aquilo que define quem e o que somos quando ninguém está olhando. Um traço permanente queimado na pele da alma.

Assim, “caráter” se torna uma bela sinédoque – figura de linguagem em que uma parte diz pelo todo. A parte que revela o inteiro, o detalhe que entrega o enredo completo.

Porém, nesta era de disfarces e máscaras bem talhadas, que vivemos no Brasil, o “caráter” tem se esvaziado da nobreza original. Com desconcertante frequência, encontramos a palavra acompanhada de um prefixo sombrio: "mau". O “mau-caráter” – figura recorrente e caricata – tornou-se personagem habitual no noticiário, ambiente de trabalho, na política e até na esquina mais próxima.

O CANALHA

O canalha atual veste diferentes peles e trajes. Mas, se observarmos com atenção, há traços típicos que o denunciam. O mais evidente, sem dúvida, é a desonestidade. Para ele, mentir é uma necessidade vital. Trapaceia com naturalidade e engana com raro cinismo, sempre em busca de alguma vantagem escusa, de preferência à custa dos outros. É mestre na arte da manipulação: velhaco, envolvente, perigosamente carismático. Faz-se de benevolente, mas não passa de um gordo parasita. Vive e sempre viveu às custas e sombras dos esforços alheios – e não sente a mínima vergonha disso.

Quando contrariado, revela-se agressivo e arrogante. A voz se eleva, o dedo aponta para todos os lados, mas jamais em direção ao espelho. Nunca erra, nunca falha – ou, ao menos, nunca assume. A responsabilidade, afinal, é sempre do outro. Do inimigo, do aliado, do passado, do acaso. Com lábia, o safado dilui a verdade em versões ridículas.

Tal comportamento não é raro ou transitório. Esse indivíduo, o mau-caráter, desenvolveu uma espécie de couraça moral: tornou-se imune ao remorso, resistente ao arrependimento, impermeável à vergonha.

No fundo, trata-se de um sociopata perfeito e acabado. Vaga entre os vivos, mas não vive os problemas dos outros: ignora sentimentos, despreza direitos e é mau por simples natureza. Por onde passa, deixa rastros de desconfiança, decepção e conflito.

O TEMPO

Mas o tempo, sempre ele, tem o hábito de cobrar suas dívidas. Até que um dia a conta chega. O mau-caráter, outrora bajulado e temido, começa a perder espaço, respeito, credibilidade. Vira figura isolada a ser evitada.

Seus aplausos agora vêm de claques contratadas. Sua aparição pública exige logística, segurança e sanduíches de mortadela.

Porém, é importante lembrar que nem todo canalha nasce assim. Muitos são forjados em lares desestruturados, criados à sombra de maus exemplos, privados de limites e amor verdadeiro. A falta de freios morais, somada a ambientes tóxicos, planta a semente. Mas é a escolha consciente que faz crescer a árvore do caráter – ou de sua ausência.

Assim vaga o destino do mau-caráter: ora glorioso, às vezes infame. Mas, pode apostar, seu desfecho será trágico. Pois, no final, a máscara sempre cai – e o cinzel invisível da verdade grava, com crueldade quase poética, aquilo que ele passou a vida tentando esconder.

Não por acaso, as Escrituras Bíblicas já alertavam sobre esse tipo de desvio – sobre aqueles cuja corrupção se aprofunda tanto que já não conseguem mais voltar:

“Suas obras não lhes permitem retornar a Deus, pois o espírito da prostituição está entre eles, e porque não conhecem o

Eterno.” (Oseias, 5,4 ).