A exposição de Vilma Sonaglio celebra os cinco anos do V744, espaço expositivo que funciona na própria casa da artista, em Porto Alegre. A mostra parte das sombras e dos vestígios encontrados na residência para construir uma reflexão sobre memória, passagem do tempo e transformação. Fotografias, objetos e detalhes da casa ganham novas camadas de significado ao serem incorporados ao trabalho da artista. O texto da crítica e curadora Gabriela K. Motta aproxima a exposição das histórias que permanecem inscritas nos espaços e nas coisas. Ao completar cinco anos, o V744 reafirma sua vocação como uma casa aberta à arte, às vivências e aos encontros.
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Sombras
Quando com a aurora surge o dia, a casa Estende no terreno a sombra informe Que pouco a pouco diminui, conforme Sobe e caminha no alto o sol em brasa.
Ao meio-dia, quando o espaço dorme, A sombra é nula na parede rasa; Depois, até que o sol no poente jaza, Vai crescendo e estendendo a cauda enorme.
E avançando de rastros pela alfombra Penetra aos poucos o negror profundo Da noite, e vaga, vil, desaparece.
Sombra na terra, sombra n’alma – mundo De sombras… Tudo, nesta vida, é sombra Que cresce, que decresce, que recresce.
Mario de Andrade
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Uma das coisas que se transformam quando as cidades são tomadas por prédios, são as sombras. O sol que deixa de entrar pela janela não pode mais projetar uma árvore na parede, nem salpicar o chão com as frestas da persiana. Torna-se raro conviver com as sombras, privilégio das casas.
Também as sombras são fantasmáticas, surgem e desaparecem num piscar de olhos, escapam no segundo imediato ao que foram vistas, alongam-se, esfumaçam. Não adianta esperar pelo dia seguinte, a terra já se moveu um pouco, o sol sutilmente mudou de ângulo, as nuvens interferem na intensidade da luz, a sombra de hoje é apenas parecida com a de ontem.
As sombras são ainda uma primeira experiência de imagem. Antes de qualquer aparato técnico, antes das tintas, antes do cinema, antes da fotografia, antes do óxido de ferro, antes até do ser-humano, as sombras se projetavam por aí, inundando o mundo de imagens fugidias. Cada imagem que se cria pelas sombras, acaba também por perder-se na sua duração.
Vilma Sonaglio, artista, idealizadora e gestora do V744, desde há muito tem por essas imagens de sombras algo além de um fascínio. Parece que para Vilma, as sombras são mais do que imagens, são textos efêmeros, uma escrita do tempo na qual se transmitem outras vivências. Nesse sentido, a sombra não é apenas algo concreto, a projeção transitória de formas através da luz, mas também é metáfora, o não dito, o acúmulo de experiências, o passado que se faz presente como lampejo. As coisas impregnadas de memórias são elas mesmas sombras de algo acontecido. Em que momento as coisas que contavam histórias viram silêncio e as chaves deixam de abrir portas?
Quando se mudou para a casa onde hoje mora e mantém o V744, Vilma encontrou uma série de itens que foram deixados pelos seus antigos moradores. Muitas e muitas chaves, um tapete, livros, revistas, pregos, vidros, alguns brinquedos, uma infinidade de slides. Madeira nobre com as quais tinham sido feitos os armários da casa. Todas essas coisas foram sendo guardadas pela Vilma, higienizadas, cuidadas como vestígios da própria vida pregressa da casa.
Em Cá(s) – a exposição – as exposições, as conversas, as coisas da casa, as sombras, surgem como imagem. São fotografias que mesmo sendo de coisas concretas, capturam dessas situações, as sombras. Quer dizer, são imagens que escapam do próprio olho, escorrem pela penugem do ar que existe entre a retina e aquilo que vemos. No canto, o canto; na janela, a sombra da janela; no jardim, as conversas no jardim; no lugar do tapete, a imagem do tapete. As chaves transformadas em imagens, são agora uma procissão de segredos que marcham juntos. Mas é uma procissão que arrebata por incluir uma harmonia não domesticada, reverbera um gesto estético, nos colocando diante da beleza do caos repaginado no âmago do filtro da arte.
Cada imagem fotográfica que ocupa o V744, cada detalhe enquadrado por uma moldura, cada objeto iluminado e cuidado é um gesto que partilha o encantamento e cria novos mundos a serem habitados por nós.
P.S.
Em 2020, ao passear pela rua Visconde do Rio Branco, percebi que estavam revirando uma casa há tempos sem moradores. Entrei no terreno, falei com os trabalhadores e fiquei feliz em saber que não seria demolida. Incluí no roteiro de minhas caminhadas acompanhar aquela obra, o que ficaria e o que sairia, o quanto o riscado aparente se transformaria ou não. Aos poucos a tal casa foi se aprontando, as paredes foram lavadas, o jardim passou a ser cultivado, as flores começaram a nascer. Até o dia em que encontrei a Vilma, regador na mão, aguando o jardim. Foi um reencontro depois de décadas que se transformou em muitos cafés no pátio, conversas longas, caminhadas compartilhadas. O V744 é aquela casa, casa aberta, na qual se cultivam sombras e vivências, as de agora, as de antes, as que virão.
*Gabriela K. Motta é curadora, crítica, pesquisadora em artes visuais. Doutora em Teoria, Ensino e Aprendizagem da Arte (USP) e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2005), é professora do Instituto de artes da UFRGS.