Caderno de Sábado

A televisão foi a maior escola para Ligia Walper

Alice Urbim* escreve texto sobre a diretora Ligia Walper, que lança seu primeiro longa-metragem, ‘Edificio Bonfim’

Sandro Maquel e Vinícius Wester no filme 'Edifício Bonfim', realizado por Ligia Walper, mostrando seu primeiro trabalho na direção
Sandro Maquel e Vinícius Wester no filme 'Edifício Bonfim', realizado por Ligia Walper, mostrando seu primeiro trabalho na direção Foto : Walper Ruas Produções / Divulgação / CP

O “Edifício Bonfim”, da produtora Walper Ruas, marca a estreia de Ligia Walper na direção de longas-metragens. Aos 45 anos de trajetória no audiovisual brasileiro, iniciada em 1981 na TV Gaúcha, hoje RBS TV, no Jornal do Almoço, ela chega à direção depois de uma carreira como roteirista, montadora, produtora executiva e diretora de televisão. Ligia costuma dizer que a televisão foi sua maior escola: “fazia de tudo; o que ainda não sabia, aprendi fazendo.”

Nos anos 80, fui eu quem a selecionou para a vaga de assistente de produção, quando coordenava a área de entretenimento. Do nosso encontro, nasceu uma amizade e a vontade de empreender. Fundamos a Viva Produções, responsável pela produção e divulgação de espetáculos locais e nacionais, como Piaf, com Bibi Ferreira, na reabertura do Theatro São Pedro em 1984. A Viva também coordenou a produção local de longas como “Noite”, de Gilberto Loureiro; “Sonho Sem Fim”, de Lauro Escorel; e o lançamento de “Verdes Anos”, de Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil.

As estreias de filmes nacionais passaram também a fazer parte do nosso portfólio, quando assumimos o lançamento dos filmes da Embrafilme no Rio Grande do Sul, como “Nunca Fomos Tão Felizes” e “Memórias do Cárcere”. No auge deste ciclo de empreendedorismo cultural, o Plano Cruzado, em 1986, funcionou como um congelamento forçado dos nossos sonhos e travou o crescimento da produtora.

Voltei para o mercado de televisão e passei a ser professora de Jornalismo na PUC/RS. Ligia migrou para outra área, dirigindo filmes publicitários e programas de TV de campanhas políticas. A virada para o cinema se consolida depois que ela conhece o escritor Tabajara Ruas, em 1988, recém-chegado ao Brasil após o exílio na Dinamarca e em Portugal. Hoje, com os dois filhos, Lucas e Tomas, vivem entre Porto Alegre e Florianópolis. Tabajara, já reconhecido como um dos principais romancistas do Rio Grande do Sul, decidiu, nos anos 2000, se reinventar aos 57 anos e ingressar na direção de filmes de drama histórico, com atmosfera de faroeste e narrativa épica.

Essa trajetória inicia com “Netto Perde Sua Alma” (2001), codirigido com Beto Souza, em que Ligia foi a montadora — trabalho que lhe rendeu o prêmio de melhor montagem no 29º Festival de Gramado, um dos cinco recebidos pelo filme, que participou de 28 mostras em 16 países. A partir daí, com formação em jornalismo pela Ufrgs e experiência em tevê, publicidade e cinema, ela se vê pronta para criar a Walper Ruas Produções, fundada em 2002. Hoje, a produtora acumula mais de duas décadas de atuação na produção executiva de longas, séries, curtas e projetos culturais.

A Walper Ruas se torna peça-chave na preservação da memória regional com títulos como “Brizola: Tempos de Luta” (2007), “Netto e o Domador de Cavalos” (2008), “Os Senhores da Guerra” (2016), “A Cabeça de Gumercindo Saraiva” (2018) e “Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez” (previsão de lançamento em 2026). Essa vivência de quatro décadas como profissional do audiovisual deu a Ligia um certificado de garantia para assumir a direção do longa “Edifício Bonfim”, filme de terror realizado em Florianópolis.

“Edifício Bonfim” entrelaça três narrativas – “Criatura”, “Trilha da Costa” e “Formando” – situadas em um prédio fictício, misturando terror, drama, comédia e elementos sobrenaturais, inspirado no folclore catarinense catalogado pelo antropólogo Franklin Cascaes.

Utilizando diferentes ritmos narrativos, Edifício Bonfim apresenta três moradores do prédio: um policial especialista em sequestros, que enfrenta uma criatura inominável; uma bruxa filmada numa trilha por uma arquiteta, e um jovem formando da inusitada Escola Superior de Serial-killers, que planeja o crime perfeito.

Contemplado pelo Prêmio Catarinense de Cinema, o filme já recebeu os prêmios de melhor filme brasileiro e melhor atriz (Gabi Petry) no Djanho Fantástico Festival Internacional de Cinema de Curitiba, em 2025. Com roteiro de Cesar Alcázar, Christopher Kastensmidt e Duda Falcão, finalizado por Tabajara Ruas, Edifício Bonfim tem estreia nacional em 7 de maio.

Em parceria inédita, a produção firmou acordo com a Universidade Federal de Santa Catarina, envolvendo 13 estagiários do curso de Cinema da UFSC, que atuaram em todas as áreas de produção. O elenco é integralmente catarinense e cerca de 90% da equipe técnica formada por profissionais locais. Ligia não economizou nas locações e nos cenários de Floripa, tendo na praia de Jurerê, o endereço cinematográfico do Edifício Bonfim.

Tomás Walper Ruas, filho de Ligia, estudante de Cinema, assina a codireção e também atua como montador, simbolizando uma transição que reúne três gerações: a geração Silenciosa (Tabajara, 83 anos), a dos Baby Boomers (Ligia, 66) e a Z (Tomás, 24). Há quem chame esse tudo-junto-e-misturado de dinastia Walper Ruas do cinema brasileiro.

É importante salientar que apesar de iniciativas pela diversidade de gênero na direção de longas, os números ainda mostram a ausência de mulheres dirigindo filmes comerciais e a persistência de um padrão histórico de liderança masculina. De acordo com o Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro 2024, da Ancine, apenas 17% dos longas lançados nos cinemas naquele ano foram dirigidos exclusivamente por mulheres.

E a diversidade geracional, por sua vez, ainda não aparece como critério nos editais públicos. Lígia, ao ser questionada em relação a este assunto, sente falta de cotas ou editais que enxerguem a idade como ação afirmativa. Afinal, maturidade é experiência, não obstáculo.

Em um país em que menos de 20% dos longas lançados chegam às telas sob direção de mulheres, e em que a idade ainda funciona como barreira silenciosa, a estreia de Ligia Walper aos 66 anos, é um gesto político e estético. Ela desafia o roteiro implícito que empurra mulheres para fora da cena, justamente quando acumulam mais repertório, e oferece uma outra imagem para o cinema brasileiro: a de que criar, dirigir e liderar histórias não tem prazo de validade, mesmo para quem enfrentou, por décadas, o filtro do machismo e do etarismo.

Cineasta Ligia Walper | Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação / CP
  • Alice Urbim é jornalista e palestrante.