Caderno de Sábado

A vivandeira que encara o tempo e a história

Jornalista e idealizadora do projeto Fala Feminina, Fátima Torri, resenha o novo romance de Hilda Simões Lopes, “Maya”, lançado nesta semana pela Libretos Editora

Hilda Simões Lopes é autora do romance "Maya', lançado nesta terça-feira, 17 de junho, em Porto Alegre
Hilda Simões Lopes é autora do romance "Maya', lançado nesta terça-feira, 17 de junho, em Porto Alegre Foto : Marco Nedeff / Divulgação / CP

O silêncio das vivandeiras gaúchas, mulheres relegadas às margens da história oficial, ganha voz e densidade no novo romance de Hilda Simões Lopes. “Maya”, obra de fôlego que une pesquisa histórica, ficção sensível e consciência social, resgata a presença dessas figuras invisibilizadas — negras, caboclas, indígenas — que acompanharam tropas e carregaram não só mantimentos, mas também dores e traumas. A autora, conhecida por trabalhos como “Tuiatã” e “A maçã da rainha má”, entrega agora uma narrativa profundamente marcada por sua própria trajetória como pesquisadora, professora e militante de causas sociais.

A gênese de Maya tem contornos quase cinematográficos. Em uma visita à Livraria/Sebo de Adão Monquelat, em Pelotas, Hilda reencontra amigos queridos – o próprio Monquelat, Mário Mattos e o Major Ângelo Pires Moreira – que lhe lançam um desafio: escrever o livro que faltava sobre as vivandeiras no Rio Grande do Sul. Eles fariam a pesquisa, ela escreveria. O tempo, contudo, impôs suas pausas. Monquelat e o Major partiram, Mattos hoje adoece aos cem anos. Ainda assim, Hilda cumpriu a promessa: “Esse livro é deles”, diz, emocionada.

VIVANDEIRAS

A protagonista Maya é filha da sudanesa Dandara, que lhe ensina, ainda menina, as histórias de um povo que cultua a força do deserto e o brilho do céu estrelado. Com a morte da mãe, a menina é lançada ao universo brutal das vivandeiras. Alistada à força nas marchas das tropas, enfrentará agressões, abusos e abandono. Mas é resgatada, ferida e quase sem vida, após uma batalha. Levada a Porto Alegre, encontrará um núcleo de mulheres intelectuais e ativistas que lutam pela abolição, pelo voto feminino, pela educação das meninas e por um novo lugar para a mulher na sociedade.

O livro atravessa décadas do século XIX, e em sua tessitura ficcional reverbera uma sólida base histórica. Hilda reconstrói ambientes e personagens reais: Luciana de Abreu, Maria Clemência e tantas outras mulheres que, em pleno Rio Grande do Sul patriarcal, abriram as portas do pensamento e da ação para um feminismo nascente. “A surpresa foi constatar como havia aqui, no Sul, lideranças femininas semelhantes às sufragistas inglesas, cinquenta anos antes delas ocuparem as ruas de Londres”, destaca a autora.

JORNADA DE AUTOCONHECIMENTO

"Maya” é, acima de tudo, uma jornada de autoconhecimento. Com traços de uma “Jornada do Herói”, a personagem parte de um lugar de extrema vulnerabilidade e, a partir da dor, constrói sua força interior. Alfabetizada, torna-se contadora de histórias. Mergulha nos mitos africanos e indígenas, dialoga com a natureza e aprende a reconhecer sua ancestralidade. Em um gesto simbólico, prepara-se para retornar à África, carregando consigo as bandeiras levantadas pelas mulheres do Cone Sul.

Se a personagem é ficcional, os sentimentos que a movem são profundamente verdadeiros – e têm eco na própria trajetória da autora. Filha das mulheres das charqueadas e dos homens das estâncias de fronteira, Hilda formou-se em Direito, acreditando na justiça como caminho. Mais tarde, migrou para a Sociologia, onde encontrou espaço para sua inquietação intelectual. Pesquisou delinquência juvenil, chefias femininas de família e a decadência da cultura pomerana no sul do país. Com a literatura, buscou transformar a pesquisa em ponte: “Sempre quis dividir com outras pessoas minha reflexão sobre a busca de uma sociedade mais justa, mais humana e mais verdadeira”.

É esse compromisso ético, aliado à sensibilidade narrativa, que transforma Maya em algo maior que um romance histórico. Ele é também um documento, um acerto de contas com o apagamento de uma parcela fundamental da história brasileira. Ao retratar a trajetória de uma mulher negra, ex-vivandeira, sobrevivente e pensadora, a obra reafirma a necessidade de olharmos para o passado com olhos críticos – e afetivos.

RESISTÊNCIA LITERÁRIA

A construção da personagem reflete, ainda, um gesto de resistência literária. Maya não é idealizada, tampouco vitimizada. Ela é complexa, ambígua, feita de dores e ternuras, de perdas e de escolhas. É mulher que pensa, age, se reinventa. Que escuta os pássaros, dialoga com a Lua, caminha até as margens do Guaíba e desaparece – ou, quem sabe, se encontra – em si mesma.

A metáfora é poderosa. Maya vai, mas sua história fica. Fica como memória, como legado, como afirmação de que as mulheres sempre estiveram ali – nas lutas, nas margens, nos porões, nas trincheiras e nas bibliotecas escondidas. E, graças a vozes como a de Hilda Simões Lopes, seguem agora mais visíveis, mais lidas, mais vivas.