Caderno de Sábado

A volta do “Guaíba”

Pesquisador José Francisco Alves se debruça sobre a escultura em mármore ‘Guaíba’, em exibição na Fundação Iberê, para traçar linhas sobre a obra e sua trajetória que se inicia na Capital em 1866, no Chafariz da Praça da Matriz

Chafariz na Praça Matriz entre 1866 e 1911
Chafariz na Praça Matriz entre 1866 e 1911 Foto : Acervo Particular / Reprodução / CP

Se passam quase três décadas do início de meus estudos em arte pública. No Caderno de Sábado, ao longo dos anos, tenho tido a oportunidade de divulgar minhas pesquisas nessa área. E um novo mote surge, a partir de uma visita à Fundação Iberê Camargo. Com muita alegria, lá encontrei em exibição uma das obras que mais me ocupei e que sigo a tentar desvendar a sua história e significados: o “Guaíba” – a estátua desaparecida que pertenceu ao “Chafariz do Guaíba e Afluentes” ou “Chafariz dos Cincos Rios”.

O contexto da estátua “Guaíba” diz respeito ao conjunto das primeiras peças de arte pública do Rio Grande do Sul: os oito chafarizes importados da França e Itália, instalados em 1865-66, equipamentos com elementos escultóricos significativos para embelezar a cidade e vender água potável. Porto Alegre, assim, foi uma das cidades nas Américas com mais chafarizes monumentais europeus.

Ao recuarmos a um tempo anterior à Guerra do Paraguai, cada vez mais resta surpreendente aquela política imperial da província, em 1861, a fazer a futura Cia. Hidráulica (o empresário concessionário dos serviços de abastecimento de água) adquirir os chafarizes. Sete deles eram produtos da cultura das fontes d’art, a arte industrial francesa de equipamentos urbanos de ferro fundido; no caso, fabricados pela Fundição Durenne. Destes, sobreviveu apenas o “Chafariz Imperial”, desde 1941 na Redenção. Produção que analisei no livro “Fontes d’Art au Rio Grande do Sul” (Artfolio, 2009). Os demais chafarizes franceses, foram vendidos pela prefeitura como ferro-velho, por volta de 1910.

O oitavo chafariz, o “Guaíba e Afluentes”, foi produzido na região de Carrara (Itália), fruto da cultura milenar da célebre indústria de escultura em mármore. Ao estudá-lo, concluí ele como sendo o primeiro monumento público stricto sensu do Rio Grande do Sul. A longa história desse patrimônio maltratado pela municipalidade e sua população, eu apresentei no mestrado (1997-2000). Na reedição de 2022 de “A Escultura Pública de Porto Alegre”, comemorativa aos 250 Anos de Porto Alegre, a história do chafariz foi bem ampliada em relação à edição original de 2004, assim como atualizei informações e trateio de mais aspectos inéditos da arte na Capital.

Esse chafariz italiano foi o principal dos adquiridos pela Cia. Hidráulica, instalado na Praça da Matriz. Sua operação em função hidráulica-decorativa e venda de água iniciou em 1866. Durou pouco tempo “lucrativo”, como os demais, pela rápida chegada da água por encanamento. Nas investigações, surgiu o inusitado caráter comemorativo da peça, até o presente sem os elementos comprovatórios definitivos. Como referências para a minha interpretação do chafariz, constou as crônicas de Aldo Obino (1913-2007), no Correio do Povo, e uma entrevista com este ilustre crítico, em 1999. Mas as principais pistas sobre seu significado constaram em série de cartas anônimas, publicadas no Correio do Povo, no biênio 1924-25.

Este chafariz, feito em série e encomendado por catálogos, aqui adquiriu uma condição de monumento pelo “batismo” das estátuas com os nomes dos quatro rios que vêm a formar o Lago Guaíba. O próprio “Guaíba” encimava o conjunto; em torno da base, os afluentes. As duas ninfas, exatamente iguais, tiveram aqui esculpidos nos pedestais os nomes dos rios Caí e Sinos; nos dois tritões, Gravataí e Jacuí. Este procedimento, a transformar uma arte industrial em celebração ao Guaíba, tem-se como ideia ao arquiteto e escultor José Obino (1839-1879), avô de Aldo Obino. A monumental estrutura era também esculpida no melhor mármore do mundo: o enorme tanque externo, eixos centrais e bandejas, tudo amplamente decorado com carrancas e frisos. A circundar o chafariz, gradis e postes de iluminação em ferro fundido, produtos da Fundição Durenne.

Em torno de 1911, retirou-se o chafariz para dar lugar ao Monumento a Júlio de Castilhos (1913). Vendido para virar pó, em 1924 restavam as estátuas em exibição numa marmoraria. As referidas cartas no Correio do Povo preconizavam que ele fosse reinstalado; foram escritas por Luís Mariano da Rocha, o Vigário Geral da Arquidiocese. Na recompra das peças, a prefeitura não conseguiu adquirir o “Guaíba” e a promessa de reinstalar “todo” o chafariz em frente à sede da municipalidade não se cumpriu. Por volta de 1936, os afluentes foram instalados na Praça Dom Sebastião. Depredados, foram recolhidos em 1983; em 1996, reinstalados em excelente espelho d’água, cercado, com esguichos e iluminação. Novamente depredados, a via-crúcis das estátuas acabou em 2014, sendo instaladas na Hidráulica Moinhos de Vento.

A destruição desse chafariz italiano fez a capital perder aquele que seria uma das maiores obras do gênero fora da Europa. Se constituiria em um dos nossos maiores cartões postais. Imaginemos, o chafariz monumental hoje em frente ao Paço dos Açorianos. No local, 20 anos depois (1935) foi instalado outro chafariz significativo, de outra cultura, a arte industrial cerâmica de Talavera de la Reina (Espanha).

A estátua do “Guaíba”, ela mesma, nos dá maiores elementos para a percepção de seu contexto original. Trata-se de homem nu, barrete frígio à cabeça (possível alegoria da Liberdade), a abraçar uma enorme bandeira (quebrada há décadas) e segurando ao alto uma tocha (não confirmado, pois o braço também foi quebrado). Aliás, no enorme tanque havia esculpidos quatro enormes barretes frígios, voltados aos pontos cardeais. Com tal configuração, se suspeita de uma referência, pouco provável, à República Rio-grandense. Com o tempo, o “Guaíba” seguiu de mão em mão. Esteve na exposição de um leilão de Paulo Gasparotto, no Palácio Piratini, há alguns anos. Atualmente, íntegra a coleção de Dalva Nunes da Silva, a qual, felizmente, por intermédio de Gasparotto, propicia que voltemos a admirar a “desaparecida” escultura.

Esta segunda exibição do “Guaíba” renova a pesquisa contínua. Percebe-se que a estátua tem uma escala menor que os afluentes, não possuiu atributos do contexto mitológico do reino dos mares – a exemplo do Netuno que coroa o “Château d'Eau” (Cachoeira do Sul, 1925), com suas oito ninfas (quatro delas, a mesma “Samaritana” de Porto Alegre) – e, principalmente, a escultura não tem a inscrição “Guaíba”, o que é um fato intrigante. Esses três indícios apontam uma descontextualização da estátua do conjunto: ela não foi feita para habitar um chafariz; ao mesmo tempo, a simbologia (barrete) se repetia quatro vezes no tanque: seriam os quatro barretes que faltam às demais estátuas?

Assim, percebe-se que ainda há muito a investigar sobre o significado de nosso primeiro monumento. Por isso, a importância em se analisar uma obra arte frente a frente – ela que, ao mesmo tempo, é o seu próprio documento. Nos permite mais uma oportunidade de nos aproximarmos – ou nos afastarmos – da possível mensagem que o chafariz realmente continha. A exposição “Iberê Camargo – Território das Águas”, na qual exibe-se o “Guaíba”, segue até fevereiro.