Num tempo em que a boa literatura concorre com as novas formas de comunicação, eu continuo um fervoroso adepto da leitura. Um bom livro nos consola, dá prazer, apela aos nossos sentidos e alimenta o nosso intelecto. É um valioso recurso para aliviar as nossas angústias existenciais. É impossível fazer a apologia da boa leitura sem mencionar Marcel Proust, autor da obra clássica “Em busca do tempo perdido”. O seu prazer pela leitura aparece anos antes, no prefácio intitulado “Sobre a leitura”, na tradução para o francês de Sésamo e lírios, de John Ruskin. Na obra, é feita a analogia do valor da leitura com a expressão “Abre-te, Sésamo!”, palavras mágicas de “Ali Babá e os Quarenta Ladrões” para abrir a caverna dos tesouros, numa das histórias das As mil e uma noites. A leitura seria o “Abre-te, Sésamo!” com o qual o leitor poderia penetrar no mundo maravilhoso dos livros. Para Ruskin, o livro oferece ao leitor a melhor versão de quem o escreveu.
A leitura instiga a imaginação e faz com que o leitor viva em pensamentos as vidas que jamais viverá na realidade, expandindo o texto escrito pelo autor e dando-lhe os destinos mais inesperados. Em “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, a traição de Capitu pode ou não ter existido. E se existiu, pode assumir as formas que a imaginação do leitor deseja. Eu recordo os meus primeiros mergulhos literários, quando minha irmã lia para mim “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato e as “Fábulas”, de Esopo. Depois, tornei-me fã das enciclopédias – eu amava O Mirador! Com seus verbetes, alguns ilustrados, eu despertei para o sexo, procurando as figuras nuas femininas de Debret. Descobri, então, a literatura de Erico Verissimo – eu adorei “Olhai os Lírios do Campo!” - e torci para que Eugênio optasse pela doçura de Olívia e não pela futilidade de Eunice. Li também livros de aventuras, como “A Ilha do Tesouro” e “O Médico e o Monstro”, de Stevenson.
Com o passar dos anos e o estímulo dos meus professores, tomei gosto pelas obras clássicas, que não são chamadas assim por acaso – elas têm algo de atemporal e de universal. Há que se ler Shakespeare, Homero, Dante, Cervantes, Balzac, Dostoiévski, Tolstói, Proust, Joyce ou Kafka, se quisermos saber como foi a passagem do homem pela Terra. A leitura não se presta à superficialidade. Ela exige concentração e reflexão, para que a mensagem enviada pelo autor possa chegar ao leitor. Num bom livro, há a sensação de que o “fogo de Prometeu” vai direto ao coração. Eliot afirmava que o escritor não escreve sozinho, mas traz a marca dos escritores que o antecederam. Depois de ler Kafka, Borges conta que passou a entender muitas de suas leituras anteriores. Quando li “A Pele do Onagro”, de Balzac, impressionou-me a mistura de realidade e fantasia. Precisei ler Borges, anos depois, para entender esta obra. Meu conselho ao jovem leitor é começar pela poesia ou por histórias curtas. O conto “Uma Alma Simples”, de Flaubert, é um exemplo. O leitor amará Felicité e o seu papagaio Lulu. Há uma grande literatura feita de textos curtos. Borges escreveu maravilhas em poucas páginas - “O Aleph”, “A Biblioteca de Babel”, “O Sul” ou “O livro de areia”. Recomendo “O Capote”, de Gogol; “O Coração Revelador”, de Poe; “A Dama do Cachorrinho”, de Tchekhov; “O Cavalheiro de São Francisco”, de Bunin; “A Invenção de Morel”, de Bioy Casares; e dentre os contos mais longos “Eles”, de Kipling, autor do belo poema “Se”.
Depois, o leitor poderá lançar-se nos mares mais profundos do romance. Tolstói, nas páginas iniciais de “Anna Karenina”, observa que as famílias se assemelham na felicidade, mas cada uma tem a sua forma de lidar com o sofrimento. São dele Guerra e Paz e A morte de Ivan Ilitch – este último um romance curto, mas que nos faz refletir sobre o sentido das nossas vidas. Para saber sobre os tipos humanos, não há nada como a dramaturgia de Shakespeare. “Hamlet” é a peça teatral mais exibida de todos os tempos. Do bardo inglês, há Rei Lear, Macbeth, Romeu e Julieta, Othelo e outras maravilhas. Harold Bloom afirmava que a obra de Shakespeare representa quase a invenção do humano, por ser o resultado de um processo de autoconhecimento através da literatura, fruto de um diálogo do autor consigo mesmo e não com divindades. Não há quem supere Homero para nos ensinar – com A Ilíada – como viviam e pensavam os gregos no mundo antigo; ou sobre as grandes epopeias dos mares – com a Odisseia - inspiração para clássicos que viriam depois, como “A Eneida”, de Virgílio, ou “Os Lusíadas”, de Camões. Para aprender sobre a força da natureza, uma boa leitura é “Moby Dick”, de Herman Melville; e para lembrar do absurdo ou da ausência de sentido de nossas vidas, recomendo a leitura de “O Prisioneiro”, de Camus.
Sobre a grande peste do século XIV, nada supera “O Decameron”, de Boccaccio, que reúne histórias bem-humoradas, contadas por sete moças e três rapazes da sociedade florentina, que para fugir da doença, confinam-se numa confortável casa no campo. Quem quiser saber como pensava o homem europeu da Idade Média, leia a “Divina Comédia”, do “sumo poeta” Dante Alighieri. É através deste longo e belo poema, escrito na “linguagem falada pelas mulheres nas ruas”, que o idioma italiano se consolida. O que dizer do “Dom Quixote”, de Cervantes, que – nas palavras de Borges – não era um personagem da obra e sim um amigo de todas as horas? Cervantes cria uma paródia dos romances de cavalaria, para mim a obra mais representativa da literatura de língua espanhola (secundada, penso, por “Cem Anos de Solidão”, de García Márquez). O leitor interessado nas angústias do homem das primeiras décadas do século XX deve ler A metamorfose, de Kafka. É um texto curto e que prende a atenção do leitor – não é comum despertar, numa certa manhã, transformado numa barata gigante. Outra leitura – mais difícil - seria “No Caminho de Swann”, o primeiro dos sete volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust, uma beleza de construção literária. Quem sabe, o leitor seguirá adiante na leitura dos volumes restantes.
Os mais corajosos podem tentar o quase indecifrável “Ulisses”, de James Joyce, que descreve as vinte e quatro horas do dia de um homem comum, inspirado na sequência dos eventos descritos na “Odisseia”, de Homero. Eu não perderia a chance de ler “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann. O personagem central Castorp conduz o leitor pelos meandros de um asilo para tuberculosos em Davos, na Suíça, onde aprenderá sobre a terrível doença e, mais importante, sobre o pensamento do homem europeu do período que antecede a Primeira Guerra. Bandeira esteve internado num sanatório suíço para tratar a sua tuberculose. Há outros romances que me tocaram profundamente, como “As Cidades Invisíveis”, de Ítalo Calvino, com os lugares de nomes femininos e os relatos de Marco Polo ao imperador Kublai Khan; ou “O Lobo da Estepe”, de Hermann Hesse – lembro que eu, adolescente, identifiquei-me com o personagem do cinquentão atormentado. Há também dignidade de “O Velho e o Mar”, de Hemingway; ou a dureza de “O Jogador”, de Dostoiévski, com o qual dei-me conta do poder destrutivo da compulsão de jogar. Desfrutei o realismo de “A Comédia Humana”, de Balzac, um fiel retrato sociedade francesa de sua época, que li uma parte, mas não toda; as aventuras de “Oliver Twist” e as histórias quase autobiográficas de David Cooperfield, de Dickens; e a obstinação de Jean Valjean em proteger Fantine e a pequena Cosette, e a perseguição incansável do inspetor Javert, em “Os Miseráveis”, de Victor Hugo. Dos autores mais recentes, não posso esquecer de recomendar ao leitor a linguagem cuidadosa de “Conversa na catedral”, de Vargas Llosa; e as surpresas de “O jogo da amarelinha”, de Cortázar.
Para nós, leitores da língua portuguesa, há que desfrutar a riqueza poética dos heterônimos de Pessoa, em “Tabacaria” ou “Poema em Linha Reta”, de Álvaro de Campos; e “Num Meio-Dia de Fim de Primavera”, de Alberto Caeiro; ou “Autopsicografia” e “Mar Português”, de Pessoa ele mesmo, em que o poeta diz que “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”. Adolescente, eu li “Os Maias”, de Eça de Queiroz; depois, “O Crime do Padre Amaro”. Eça apresentou-me ao pecado. Há que lembrar do “Memorial do Convento” e do “Ensaio sobre a Cegueira”, de Saramago e tantas obras maravilhosas. Dos brasileiros, há Machado, de quem já citei “Dom Casmurro” e destaco a ironia fina, a crítica social e a bem-humorada antecipação da literatura fantástica em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Há o monumental “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, com mais de seiscentas páginas de uma narrativa cheia de neologismos e sem descanso, regional só na aparência do sertão árido de Minas, dos enfrentamentos entre bandos de jagunços, num Brasil quase sem lei, mas que ao final percebemos ser o embate entre deus e o diabo, tão universal como o “Fausto”, de Goethe. Há também as obras de Graciliano, Euclides da Cunha, Clarice, Jorge Amado, Érico, Bandeira, Drummond, João Cabral e tantos outros.
leitura. Numa entrevista com Evanildo Bechara, ele lembrou que, mais importante do que memorizar regras gramaticais, a leitura é a melhor maneira de dominar um idioma. No curso secundário, uma professora orientou-me a adquirir uma edição da “Divina Comédia” que contivesse os versos originais no italiano e ao lado a sua tradução para o português. O seu argumento era que a poesia é antes de tudo a “música” contida nas palavras e que isto só é percebido ao ler em voz alta os versos no original – o sentido vem depois. Se eu pudesse aconselhar o leitor, eu diria que não perca tempo com leituras que não o agradem. Fique com os textos que capturem a sua curiosidade. Ao ler o que dá prazer, os encantamentos da boa literatura terão mais chance de penetrar o coração. Uma vez refém do livro, o leitor pode permitir-se voos mais elevados. Atenção: um bom livro pode causar mal-estar, quando se trata de temas mais difíceis. Ao ler “Crime e Castigo” ou “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski; ou “Lolita”, de Nabokov, o leitor entenderá o sentido de minhas palavras.
O milagre da literatura se dá quando o texto chega ao leitor e triunfa. Ele compreenderá, então, não mais o texto, mas o sentimento nele depositado pelo autor. Escrever um livro é algo muito sério. Proust impôs a si próprio um exílio em seu quarto de dormir, para criar a sua obra-prima, Em busca do tempo perdido. Para que nada lhe tirasse a concentração, ele tratou de atenuar o ruído das ruas, mandando aplicar um revestimento de cortiça nas janelas do seu quarto. Isto se justifica na premissa de que o autor dá ao texto o seu melhor. Talvez esteja aí a essência da leitura, a possibilidade de que, através do livro, possamos desfrutar do que há de mais profundo na experiência humana. Quando li “Noites brancas”, de Dostoiévski, eu entendi o que é sonhar através da leitura. Imaginei ser capaz de conquistar o coração da jovem Nastienka, no indescritível branco das noites de fim de junho, na bela São Petersburgo, mesmo ante a impossibilidade de ser por ela correspondido.