Caderno de Sábado

Água da Palavra

Texto de Gabriela Kremer Motta propõe uma reflexão sobre a exposição “La Esperanza/ Água”, de Maria Paula Recena, em exibição no V744Atelier

A exposição La Esperanza/Água, da artista Maria Paula Recena, segue até dia 8 de maio, no v744 Atelier
A exposição La Esperanza/Água, da artista Maria Paula Recena, segue até dia 8 de maio, no v744 Atelier Foto : Vilma Sonaglio / Divulgação / CP

“O vídeo “La Esperanza” entra e sai de foco, no ritmo de uma respiração. É com esta imagem que somos recebidos na exposição “La Esperanza / Água”, de Maria Paula Recena, em exibição no V744 Atelier até dia 8 de maio. O sugestivo nome está escrito sobre uma cadeia de montanhas nevadas. Em tons de azul e branco, o rótulo ainda indica que a água vem de uma fonte curativa. Tudo ali pulsa tranquilidade, pureza, solidez. Ainda que a consciência frente ao aquecimento global nos diga exatamente o contrário.

É a partir deste rótulo encontrado pela artista em 2005, da percepção da contradição entre a palavra, a imagem e a concretude do derretimento das geleiras austrais, que um conjunto ainda sem nome inicia. Ali algo acontece, e ao invés de desaparecer em meio a um livro ou folheto de viagem, ou perder-se pelas casas nas quais morou a artista, este pedaço plástico sobreviveu. E fez crescer a partir de si um universo de algumas centenas de outros rótulos de outras águas de outras geografias de um mundo em constante desarranjo ecológico, de conflitos territoriais infindáveis. Uma coleção em construção há mais de 20 anos.

Mas como se forma uma coleção? Quando ela está completa? Do que ela fala? No caso dos rótulos de Maria Paula, este conjunto se constrói a partir de uma rede formada por seus afetos. São em sua grande maioria, exemplares trazidos por amigos que viajam. Não há um mapa a ser preenchido, mas sim uma teia a se reafirmar a cada exemplar que não se extravia na bagagem. O trabalho se faz desses encontros, fala de comprometimentos firmados pela confiança. Entrelaça a vida em sua movente estrutura.

Ao mesmo tempo, através desses rótulos, percebemos diferenças culturais no que tange ao rigor gráfico, símbolos nacionais, peculiaridades industriais. E também algo de inserções em circuitos ideológicos, como no exemplar trazido do Egito, o qual estampa um mapa que abarca os territórios de Israel e

Palestina com apenas a inscrição Palestina em árabe sobre o desenho. Seria esta garrafa d’água um projeto artístico-político? Quais mercados do Cairo estariam dispostos a vendê-la? Quem imprimiu esse rótulo? Fagulhas de um conflito ancestral a figurar em uma embalagem que, em teoria, logo seria descartada.

Ainda, esta coleção nos convida a encarar o aquecimento global, as contradições entre a eternidade tóxica do plástico e o esgotamento vertiginoso da água potável sobre a terra.

Assim é que, salvos do seu continuum, esses rótulos contam-nos histórias de quem se aventura pelo mundo, histórias das regiões de onde vieram, histórias que poderiam se evaporar não fosse a operação em curso proposta pela artista.

Ao armazenar, mapear, higienizar, investigar, associar, guardar, dispor cada exemplar, criando com eles outras reverberações, Maria Paula nos propõe um mergulho na própria experiência de dar sentido às coisas.

Organizada em cerca de 40 pêndulos formados por aproximadamente 10 pares de rótulos cada um, dispostos em “sanduíches” de acrílico, a coleção ocupa organicamente a sala principal do V744atelier. Suspensas e moventes, prevalentemente em tons de azul e verde, essas colunas acabam por refletir no espaço a luz do ambiente, transformando o chão da galeria em uma superfície aquífera. Aquele espelho d’água que vemos na estrada após fortes chuvas, a superfície de uma piscina na luz do entardecer, a fugacidade inebriante daquilo que insiste em escapar ao verbo, ao registro fotográfico, ao desenho. Mais uma vez, algo se move, surge e desaparece, diante de nossos olhos.

Há ainda mais um vídeo em exibição, realizado em parceria com Vicente Carcuchinsky, no qual acompanhamos uma água que se esvai por um ralo.

Projetado em grande formato em outro ambiente da mostra, em looping, a água está sempre se esgotando, roncando o seu fim. Ao mesmo tempo, por suas dimensões, nós mesmos e tudo o mais estaríamos na iminência de sermos sugados por sua força centrípeta. Filmado na casa da artista, traz ainda essa dimensão cotidiana e, portanto, nem sempre percebida, da nossa relação com a água.

Processos como esse estão em curso em toda a exposição: reflexos, pulsação, escoamento. Sentidos que se instauram de modo tênue, fugidio, criando um encantamento que não suspende a tragédia ecológica envolvendo a exploração econômica das águas que paira na atmosfera da mostra. Vivemos imersos nessas contradições, entre sermos absorvidos pelo fluxo atávico dos dias e encontrarmos nas frestas do cotidiano o desvio necessário para resistirmos a ele.

“La Esperanza/ A esperança respira”, é coisa viva dentro da gente, nem sempre ativa, nem sempre acordada, por vezes valendo só no imediato: vencer a tarefa dos dias. Mas de que vale vencer os dias se, como diz um escritor argentino, não formos capazes de sentir o frio metal da colher que mexe o café? Ou a transpiração das paredes da casa? E, sentido o metal, sentindo os tijolos, já não é mais ao dia que se dirige à esperança, mas ao pulso das coisas vivas, que movem o desejo.