Em 1966, um jovem médico veterinário de 25 anos entregava ao mundo sua primeira semente literária. Alcy Cheuiche não trazia apenas técnicas científicas de Paris, onde passara dois anos, e de onde enviara regularmente crônicas para o Correio do Povo. Além disso, mantivera no Quartier Latin o pulsar vibrante do pampa.
Como bem notou o mestre Mozart Pereira Soares, “Versos do Extremo Sul”, seu livro de estreia, a par de uma visão universal, faz desfilar toda a temática das vigílias crioulas. Vejamos alguns trechos dessa apresentação datada de abril de 1966:
Depois de se desculpar de que o dominam a tristeza, o sentimentalismo aguçado pela ausência grande, pois esses versos foram escritos em Paris, onde após sua formatura de médico veterinário, foi fazer estudos de pós-graduação, ele recorda:
“Campo aberto à minha frente
Enxergo, como num sonho
O rio tão claro e risonho
Refletindo a luz da lua,
Que o índio de pele nua
Numa exaltação pagã
Chamou Ibirapuitã
No batismo de Charrua.”
Observe-se o tom nostálgico de quem assiste ao desmoronamento desse mundo ancestral, protestando através da evocação de Tapera, Índio Velho, Recuerdos, ou canta as virtudes afirmativas da Raça, na Hospitalidade, na Tropeada, ou nesse lance de viva e heroica dramaticidade, relíquia de nosso passado, digna de figurar numa antologia universal de lances históricos, que é o Duelo entre dois Farrapos que assim se defrontaram:
“Bento Gonçalves, sereno,
Saudou Onofre com a espada.
E logo então foi travada,
Às margens do Sarandy,
Uma luta Guarani
Em velho estilo de França
Que cerrou na mesma
trança
Guerreiros de grande porte
Olhando de frente a morte
Que entre os dois se
balança.”
Esse duelo, afinal, encontrou um de seus Poetas, que traz, no sangue, de mistura com as velhas tendências milenares dos Cheuiches Libaneses, a braba estirpe dos Vargas e dos Joca Tavares, de 93...
Mistura gaúcha de etnias, que Jayme Caetano Braun destacou de imediato na sua magnífica apresentação em versos:
“Junto à viola missioneira
De payador andarengo
Rezo meu culto avoengo
Dentro da noite campeira,
Onde a estrela
transfogueira,
Que dorme, em negro
azeviche,
Sonhando, talvez cochiche,
Em notas de verde-azul,
Os Versos do Extremo Sul
De Alcy de Vargas Cheuiche.
Dos Cheuiches Libaneses,
De tradições milenares,
Dos Vargas e dos Tavares,
Espanhóis e Portugueses,
Cujos brasões camponeses,
Bordados além Oceano,
Vieram ao solo pampeano
Participar na feitura
Da legendária figura
Do Centauro Americano!
É marca de procedência
Dos poetas da nossa Raça
Que choraram na fumaça
Junto aos fogões
da Querência,
Esta bárbara tendência
De cantar o verso cru:
Verso nativo, xiru,
Que está nas Letras sentado,
Como um sorçal colorado
Sobre o cupim dum zebu.
Aureliano, Vargas Neto,
Como Hidalgo e Ascassubi,
Mamaram no mesmo ubre
Apojos desse dialeto
Abrindo um novo trajeto
Pra o advento dos grandes
E desde a taipa dos Andes
Ao sangrador do Oceano
Dá gosto ouvir o minuano
Cantando Ruivo e
Hernandes.”
Jayme, que continua sendo um dos poetas mais idolatrados do nosso Extremo Sul, como se comprovou em 2024, no centenário de seu nascimento, depois de homenagear, um a um, todos os versos do livro, assim conclui sua payada, datada de Porto Alegre, 1º de março de 1966:
“Aqui está o poeta, portanto,
Que nos encanta e seduz.
Andou na Cidade Luz,
Voltando ao Rio Grande santo.
E o livro tem tal encanto,
Desfraldado aos quatro ventos,
Que a gente espera, em momentos,
Que não termine, se espiche,
Pois Alcy de Vargas Cheuiche
Traz a Poesia nos tentos!”
Sob a bênção de gigantes, como Mozart Pereira Soares e Jayme Caetano Braun, Alcy documentou sua evolução, fundindo a vivência de campo com uma sensibilidade poética que o tempo só faria consagrar.
Seis décadas depois, no dia 14 de maio de 2026, este relançamento, a ser realizado também para comemorar seus quarenta anos de destacadas atividades na Academia Rio-Grandense de Letras, como aconteceu nos 120 anos de Erico Verissimo, não é apenas um resgate nostálgico; é a celebração da gênese de um dos maiores intelectuais do Brasil contemporâneo. É a recordação dos primeiros passos do mestre que viria a imortalizar, além de Bento Gonçalves, outras figuras históricas como Sepé Tiaraju, João Cândido, Santos Dumont, Tamandaré, Caxias, em obras que vêm sendo reeditadas constantemente.
A trajetória de Alcy Cheuiche, um poliglota que fala, lê e escreve em cinco idiomas, é um exemplo raro de coerência e dedicação à palavra. Pelotense criado em Alegrete, Cidadão de Porto Alegre e do mundo, foi patrono de algumas feiras de livros, como a nossa da Praça da Alfândega, e participou de muitas outras, em diferentes países, pois sua carreira transcende fronteiras. Como educador, formou gerações de novos escritores através de suas Oficinas Literárias, mantendo viva a chama da criação. Sua obra, que transita entre o romance, o teatro, o conto, a crônica e a poesia, além de algumas traduções memoráveis, como o clássico Mancha e Gato, de Aimé Tschifely, é hoje um pilar inabalável da nossa identidade cultural.
Reler “Versos do Extremo Sul” é compreender de onde veio a força narrativa de Alcy. É redescobrir o campo aberto que ele vislumbrou na juventude e que, ao longo de sessenta anos, transformou em um vasto território de saber e arte.
Para todos nós, este livro é o testemunho de que a grande literatura, como o minuano que varre nossas coxilhas, é eterna e necessária.
HOMENAGEM
Comemoração a ser realizada, a convite da Academia Rio-Grandense de Letras, na sede da AGEA (Rua dos Andradas 943, 11º andar), no Centro Histórico de Porto Alegre, na quinta-feira, dia 14 de maio de 2026, com início às 17h.
- DANIEL MIRANDA é jornalista, escritor, editor responsável pela Editora do Pampa.